01/09/2008 07:32
O quadro que inspirou Pedro Américo em seu Indepêndencia ou

Dêem uma observada atenta a esta tela acima. Seu título é Napoleão III na batalha de Solferino de autoria do pintor francês Jean-Louis-Ernest Meissonier e foi pintada em 1863.
Agora siga até a postagem abaixo e observe o quadro de Pedro Américo, Independência ou Morte!, o qual foi apresentado em 1888.
O quadro foi uma encomenda da Corte justamente no momento em que a crise do sistema monarquico chegava aos seus extertores finais, o que pode justificar parcialmente a encomenda. Uma tentativa, talvez, de lembrar os políticos o quanto o Brasil, supostamente, devia a familia real por dua independência e existência.
Pedro Américo, o qual nem de longe presenciou o corrido do sete de setembro, se inspirou em quadros clássicos franceses ligados as figuras reais de lá, como o quadro de Meissonier. Mas, além disso, Américo era um pintor da escola clássica, a qual tinha procedimentos bastante claros a serem seguidos, normas de conduta na representação de figuras reais, perspectiva, movimento, etc.
Não é uma "cópia", é uma obra que se encontra dentro de um cânone de procedimentos tecnicos e esteticos.
Além do mais muita gente critica o quadro por uma suposta "falta de realismo". Dom Pedro estaria numa mula e não a cavalo, a guarda não estava vestida desta forma, mas de outra, etc, etc, etc.
Pode ser que seja assim, mas isso não faz do quadro uma "falsidade". Para entender isso, temos de recorrer a mentalidade da grande maioria dos historiadores e memorialistas do século XIX.
Num texto clássico romano o grande orador Cícero dizia a um colega seu: Tudo bem, tu dizes que ele morreu de causa natural e eu digo que morreu assassinado. Pois bem, permita-me ficar com a segunda versão, pois ela atribui grandeza a história e oferece um exemplo digno de ser lembrado.
Esse procedimento, o qual guiou durante muito tempo o pensamento histórico do mundo clássico, o de que a história serve para oferecer exemplos dignos de serem seguidos (a "história mestra da vida") foi retomado em diversos momentos ao longo do tempo.
E este procedimento estava implicito na composição da tela de Pedro Américo. Afinal de contas, o que há de nobre ou de memorável numa procissão de mulas parada numa colina e um principe regente irritado com uma carta de Lisboa?
Mas, se ao invés disso temos o evento no qual "Nasce o Brasil como nação independente" isso merece ser lembrado, merece ser dignificado, merece escoltas fabulosas, cavalos rampantes, espadas desembainhadas. Isso é digno de memória para o pensamento das pessoas do século XIX.
O quadro, assim, não é uma "farsa", mas uma leitura do passado dentro das regras que estavam estabelecidas na época em que foi pintado.
Se tiverem um tempinho e lerem o texto abaixo verão que a prórpia data do 7 de Setembro demorou para ser aceita como data nacional. Mas, em 1888, quando ruia o edificio monarquico, o 7 de setembro já era aceito e a monarquia precisava se agarrar a memória de tempos melhores.
enviada por Indiana Silva
28/08/2008 11:40
O 7 de setembro e as versões oficiais

Em mais uma semana, aproximadamente, estaremos no nosso 7 de setembro, data nacional na qual, todos os anos, segundo minha professora orientadora milhares de brasileiros fazem uma "romaria cívica" em direção ao Museu Paulista, conhecido popularmente como "Museu do Ipiranga" em São Paulo.
Desses visitantes quase todos irão ao salão nobre, ao principal espaço do museu, onde está o original da famosa tela de Pedro Américo na qual Dom Pedro, que na ocasião não era ainda o I, declarava a independência do Brasil frente a Portugal.
O historiador francês Georges Duby escreveu certa feita que as datas, os eventos, são como as espumas do mar, que soltam suas bolhas as quais estouram na superficie, mas, debaixo da espuma, há o mar, com toda sua força, discreta e continua.
Os estudos históricos, na primeira metade do século XX, foram marcados por uma recusa do estudo das "datas" e dos "eventos" (coisa que era, e ainda é, tido como a função da história, e que fazia gelar a nuca de qualquer aluno com um pouquinho de bom senso). Para os críticos os eventos eram menos relevantes do que os "processos históricos" e privilegiavam a participação de figuras especificas, de indivíduos em detrimento dos grupos e classes sociais, supostamente os verdadeiros motores da história.
Com isso, durante um bom tempo, se jogou a água do banho com a criança junto. Somente nos anos de 1960, 1970 retornou-se ao estudo de eventos particulares, específicos.
Graças a Alá o "retorno da data" se fez de uma forma crítica, criativa e incisiva. Não se voltou a estudar a data em si, mas sua construção como marco na memória coletiva, um diálogo entre a verdade, entre o ocorrido e sua construção e desconstrução continua permeada por disputas políticas, mudanças de valores, etc.
Ou seja, algo que um dia foi importante pode desaparecer, um evento que antes era tido como banal pode ser conduzido ao pedestal, enfim, a percepção da história em si muda o tempo todo, mais ou menos lentamente.
Lembro-me de certa ocasião, numa cidade no interior de Minas Gerais, na qual minha equipe oferecia cooperação tecnica a diretora do museu da cidade. Dizíamos a ela: Olha, vamos trazer para você uns materiais legais, documentários, livros novos, material que mostra visões diferentes e menos "oficiais" da história brasileira, um livro de nossa orientadora na qual ela mostra como foi composto o quadro do Grito, etc.
A diretora esbugalhou os olhos e disse: Não, não, não, nada de coisa nova, nem alternativa. Se tiverem material "normal" podem me mandar, se não tiver não mandem nada. Imagina o problema que vou ter com os professores se vierem ao museu e virem algo diferente do que estão estudando e ensinando na sala? Vão me linchar.
Nunca mandamos nada para ela.
O fato é que grande parte da população crê que o que lemos nos livros ou que vemos em quadros e filmes são a efetiva realidade, o passado "tal como foi", e não uma "interpretação", uma construção.
Já tratei disso aqui inúmeras vezes, sobretudo a respeito do limite entre realidade e interpretação.
Ninguém está negando, obviamente, que no dia 7 de setembro de 1822 o Príncipe Regente Dom Pedro proclamou a independência do Brasil. Mas, a partir dai, existem inumeras circunstancias que precederam o tal fato, e que se seguiram a ele.
Da mesma forma a "construção" do 7 de setembro como data nacional é bem posterior ao mes de setembro daquele ano.
Durante muito tempo ficou se discutindo qual deveria ser a verdadeira data "nacional" brasileira: poderia ser o 7 de setembro, ou o dia do Fico (no qual o príncipe se recusou a voltar a Lisboa), ou o dia da abdicação, podia ser o dia seguinte, o 8 de setembro, enfim, houve uma longa disputa para que o 7 de setembro se consolidasse. E é claro que a defesa de uma data ou outra dependia das posições políticas e do papel que os grupos políticos queriam dar a Dom Pedro.
O 7 de setembro é uma data que rememora um feito do príncipe, não da "nação", inclusive por isso tinha muita gente que não queria que fosse essa data, mas alguma outra que rememorasse a decisão do "povo" de se tornar independente, e não a decisão do herdeiro.
Ficou mais simples a decisão depois que Dom Pedro, ai já o I do Brasil, decidiu abdicar do trono daqui e voltar para Portugal.
O caso era claro: sem abdicar ao trono português, Pedro I continuava a ser imperador do Brasil e herdeiro de Portugal, portanto havendo a possibilidade de uma nova união dos reinos. Nos anos que se seguiram a independência do Brasil uma insistente disputa se travou para que Pedro I optasse em qual canoa queria sentar. No frigir dos ovos, e no risco de ver Portugal ir para o vinagre diante de um golpe de seu irmão mais novo, Dom Miguel, ele optou por Portugal e foi-se embora.
Foi embora, tornou-se herói por lá, e assumiu o trono como Dom Pedro IV de Portugal. Com isso deixou seu filho criança, Pedro II, aqui, mas resolveu inclusive uma disputa politica que envolvia a memória, pois morto, todos podem ser glorificados.
Com isso abriu caminho para que o 7 de setembro fosse aceito como o Dia da Independência do Brasil.
Mas, ao dizer isso, quem quase foi linchado fomos eu e minha equipe pela tal diretora do Museu.
enviada por Indiana Silva
26/08/2008 09:58
Universo Umbigo: Karnak e Circo Fractais
Para mudar um pouco a temática e falar de coisas boas e atuais, aqui vai uma baita dica, e nem vão ficar me devendo favor por isso>
Até dia 12 de outubro deste presente ano, todas as sextas, sábados e domingos, no teatro do Colégio Santa Cruz, pertinho da Praça Panamericana em Pinheiros, a banda Karnak e a Companhia de Circo Fractais estará apresentando o espetáculo "Universo Umbigo".
Para quem conhece o Karnak, a banda de gente bamba como André Abujamra, Hugo Hori, Kuki Storlaski, Mano Bap, Edu Cabello, James Miller, Sergio Bartolo e Marcos Bowie (sem contar os que vão e vem e nem sempre estão), sabe que serão "duas" companhias circenses em palco. E isso no melhor sentido possível.
Nunca havia assistido nada dos Fractais, mas sou "macaco de auditório" do Karnak, mas mesmo esperando mais ou menos por 50% do espetáculo posso dizer que me encantei 100%, mesmo com aquilo que todos sabíamos que viria. Por exemplo: o dia que o Karnak fizer um show e não tocar "Juvenar" será como Caetano fazer show em São Paulo e não tocar Sampa, ou o Robertão tocar "Emoções". É possível? É, mas frustra o povo.
Universo Umbigo é o título de um disco antigo do Karnak (o qual comprei por uma "bachincha" perto do museu onde trabalhava na Lapa anos atrás), mas o espetáculo montado agora pouco tem a ver com o mesmo. Parte do repertório é do disco, mas foram incluidas obras de outros trabalhos e coisas novas. Por isso, primeiro aviso aos navegantes: Não é o show do disco requentado, revisitado, revisto ou ampliado. É ooooutra coisa. Apenas se aproveitou o "mote para a glosa" como diria Machado de Assis para seus coleguinhas tomando um cafezinho na Confeitaria Colombo.
Os Fractais são circenses da nova cepa, ou seja, uma mistura do clássico acrobático com performance, dança, luz e som. Um melangé do tradicional com o moderno de muito bom gosto e com excelente execução. Mas, Universo Umbigo também não é um espetáculo dos Fractais ao som do Karnak. E ai foi o segundo aviso para os aficcionados em circo ou nos "Fractos" como diria Abu Pai na abertura do espetáculo.
Em verdade, em verdade vos digo, como teria dito outro cidadão famosão, Universo Umbigo é uma experimentação midiatica e performática.
Mas antes que você desista de ver o espetáculo diante de uma definição tão besta, me redimo: é um espetáculo onde se brinca com as diversas formas de nos conectarmos ao mundo, através do som, da imagem, do gesto, do toque, das texturas e todas essas coisas intermediadas pela nossa percepção e avaliadas pelas nossas referências culturais, morais e o escambau.
É um bombadeio de luz, de som, de videos, de arte circense, teatro, sem rotulações específicas nem fronteiras delimitadas. É uma experiência. Adorei, minha namorada adorou, meu amigo/irmão mineiro/musico adorou, meu outro amigo/irmão/historiador/caipira também adorou, enfim, "tudibão" como disse o danado do mineiro que conhece como poucos musica e espetáculo (e esse povo de Beagá entende mesmo).
E no mais, uma série de "imprevisões" previstas pelos artistas e jamais esperadas pelo público. E se quer mais informação, levanta da cadeira e vai lá comprar o seu ingresso, pois o bacana é ver não é ficar conjecturando a respeito.
Preço "bacanudo" de R$30,00 inteira, com o clássico "meia" para estudantes, sem restrições de lugares ou outras calhordices afins, com patrocínio da Coca-Cola (o que mostra que a iniciativa privada tem mais é que investir no que é bom mesmo, sem palhaçadas de "contrapartidas governamentais", um bom exemplo a ser seguido pelo restante das empresas).
É isso, vão lá.
enviada por Indiana Silva
22/08/2008 10:04
Um certo Agosto, em 1954.

Um dos escritores que acho mais geniais é Ruben Fonseca. Conseguiu dar ao gênero policial uma cara brasileira, sem perder o charme do "noir". Seus livros são uma mistura de trama, intriga, paixões avassaladoras, morte, corrupção, suspense, mas também de humor, sarcasmo, ironia. Ou seja, é um batalhão de sentimentos provocados a cada página, muitos deles contraditórios, o que dá mais gosto ainda a leitura.
Comecei a ler Ruben Fonseca pelo menos óbvio: A grande arte, livro envolto na magnificfa arte do "percor" (perfurar e cortar, o que já insinua a história). Depois vieram Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, Romance noir, O selvagem da ópera, Buffo e Spalanzani. Demorou até chegar no seu livro mais famoso e mais influente: Agosto.
Talvez isso se deve a minha mania de fugir ao consensual. Se dez amigos me dizem que doce de abóbora é bom, com certeza vou pedir doce de mamão. Ok, sei que é em alguma medida burro, mas é instintivo, não chega nem a ser "estilo" pois não tem nada consciente nisso.
Muitas e muitas vezes peco tempo e prazer com essa mania. Foi assim com Agosto, do qual privei-me do prazer da leitura durante anos.
O genial de Agosto, entre outros tantos motivos, é o fato de Fonseca enredar realidade e ficção numa trama na qual chega-se a impossibilidade de distinguir uma coisa da outra. Se não foi real era bem possível que fosse assim.
Foi muito sagaz da parte do escritor escolher para o romance um dos fatos mais nebulosos da história recente do Brasil: o suicídio do presidente Getúlio Vargas.
Getúlio chegou ao poder em 1930 pela primeira vez. Liderando tropas revoltosas derrubou o governo da chamada "República do Café com Leite", representada pela alternância de políticos mineiros e paulistas na presidência do país.
Vargas conseguiu amarrar entorno de si diversos grupos descontes com o encaminhamento do Estado brasileiro: antigos membros do movimento tenentista, estados que se viam alijados do poder, grupos sociais em ascenção.
Para o cientista político Boris Fausto a Revolução de 30 não foi uma "revolução", pelo fato de não representar uma mudança radical no estado das coisas. O que aconteceu, em sua opinião, foi uma readequação, um acomodamento de novas forças no meio das que já existiam, ou seja, a entrada de novos grupos políticos dentre aqueles que já controlavam o poder no Brasil.
Seja como for, a década de 1930 foi marcada pela onipresença de Vargas no poder brasileiro: primeiro como presidente temporário (após a revolução/golpe), depois como presidente "legal" (após 1934), finalmente como ditador (com o golpe do Estado Novo em 1937).
Após o fim da II Guerra Mundial a situação política se inverteu significativamente, sobretudo com a influência de militares que combateram o fascismo e o nazismo ao lado dos estadunidenses. Neste mesmo momento Vargas foi derrubado do poder e o Brasil retomou rapidamente seu caminho "democrático".
Depois de uma rápida presidência do General Dutra, em 1950, Vargas retornou a presidência da República, e mais uma vez eleito pelo voto popular.
Mas a resistência a Vargas continuava sendo absolutamente ampla entre as elites (militares, parte da classe política), e entre grupos sociais ou políticos que haviam sido perseguidos por ele (comunistas, judeus, jornalistas, etc). Dentre esses destacava-se a figura de Carlos Lacerda, inimigo encarniçado de Vargas.
Os primeiros anos do mandato foram relativamente tranquilos, mas, depois de 1953, a situação passou a se agravar visivelmente. A imprensa era cotidianamente bombardeada com declarações de Lacerda e a aproximação continua do presidente com sindicatos e trabalhadores desagradava a muitos.
A situação se tornou insustentável quando Lacerda sofreu um atentado na rua Toneleros no Rio de Janeiro. Ele próprio sobreviveu, porém um oficial da marinha a paisana que fazia sua segurança morreu, alimentando o ódio dos militares e dando munição a Lacerda na mídia.
Em meados do mês de Agosto de 1954 era claro o clima de golpe de estado que se armava no Rio de Janeiro. Vargas podia estar quase só, mas ainda tinha ouvidos espalhados pelo país e pelos quartéis. O envolvimento direto de sua guarda pessoal e de seu irmão no atentado a Lacerda lhe implicavam diretamente.
No dia 24 uma reunião no palácio da Catete reuniu os homens de confiança do presidente. O prédio já estava cercado de barricadas esperando pelo pior. Perguntaram-lhe se queria que organizassem a defesa dele convocando tropas fiéis. Vargas disse que não. Saiu da reunião e se recolheu ao quarto, sem dar muita explicação.
Pouco depois houve o desfecho fatídico. Vargas havia dado fim a sua própria vida com um tiro no coração.
Embora haja bastante gente que tenha teorias diferentes para o ocorrido (que ele teria sido assassinado em seus aposentos, etc), não existe nenhuma prova disso.
O fato é que seu vice assumiu o governo. O país, no dia seguinte, beirou a guerra civil com enfrentamentos nas ruas, queima de jornais. Mas, com o tempo, voltou a relativa normalidade. Os militares, que planejavam um golpe, tiveram de voltar aos quartéis com receio de desencadear um conflito generalizado no país.
Anos depois, um militar da reserva dando entrevista a Zuenir Ventura disse: Havíamos montado um banquete e Getúlio puxou a toalha da mesa.
O fato é que o golpe de estado de 1964 sobre o presidente João Goulart era um golpe com retardo de 10 anos. Havia sido pensado e planejado para a tomada do poder pelos militares em 1954, mas o suicídio de Getúlio adiou seus planos. Os próprios golpistas reconheciam isso. É claro que muita água rolou entre o 24 de Agosto de 1954 e o 01 de abril de 1964, mas boa parte daquele golpe estava dormindo há dez anos.
E, de quebra, os acontecimentos de Agosto de 1954 forneceram material para um dos maiores livros policiais da literatura brasileira.
enviada por Indiana Silva
19/08/2008 20:48
Uma volta rápida por Tiradentes

Já devo ter escrito isso aqui em algum outro momento, mas como nunca é demais lembrar certas coisas lá vai uma mea culpa: não conheço as "cidades históricas" de Minas Gerais.
Apesar de conhecer regiões muito improváveis do Brasil, outras absolutamente distantes, remotas, etc, jamais fui as cidades que são consideradas um dos patrimônio maiores de nosso país.
Quer dizer...não conhecia.
Estava há algumas centenas de quilômetros de Tiradentes, uma das cidades mais a leste de Minas Gerais, mais próxima da divisa com o Rio de Janeiro. Depois de alguma confabulação decidimos, eu e minha equipe, empreender uma viagem rápida a Tiradentes. Bate e volta.
Muitas horas depois chegamos a cidade que tem o nome do mártir da Inconfidência Mineira, o alferes José Joaquim da Silva Xavier.
Muito simpática, muito agradável, muito bonita e muito cara a cidade de Tiradentes. Creio que a cidade hoje encarne um dos problemas gerados pelo binômio turismo histórico (ou cultural) e desenvolvimento social.
Há algumas décadas a idéia de aproveitar o turismo para desenvolver cidades e gerar renda, sobretudo em cidades que abrigam patrimônio histórico e cultural ou cidades que possuem um patrimônio ambiental interessante (florestas, montanhas, cachoeiras, lagos, fauna, etc), ganhou muita força.
O turismo virou uma panacéia, a solução para todos os males. Em alguns casos o turismo realmente gerou novas possibilidades de trabalho, ajudou a recuperar estruturas urbanas, aumentou a arrecadação municipal. Em outros casos as experiências não foram tão bem sucedidas, por diversos motivos. Mas mesmo as experiências tidas como "bem sucedidas" depois de alguns anos começaram a mostrar "efeitos colaterais".
Onde há dinheiro há afluxo de pessoas, e afluxo de interesses econômicos, muitos deles novos para as regiões e as realidades locais.
Os problemas são inúmeros e podem aparecer individualmente ou em grupo: exploração do trabalho, prostituição (ainda mais a de menores), especulação imobiliárias, máfias locais que controlam as licenças de operação dos negócios, invasão de empreendedores de fora da cidade, empregando os moradores tradicionais em sub-empregos, descaracterização das cidades, aceleração da degradação do patrimônio cultural e ambiental. Em suma: a medicação pode matar o paciente.
Uma coisa que particularmente me irrita é o excesso de mercantilização das cidades. Cobra-se por tudo e cobra-se demasiadamente caro, as vezes contra a vontade do visitante.
Quando estive no bairro da Boca em Buenos Aires, recentemente, fui agarrado e extorquido por uma moça fantasiada de dançarina de tango. Meu amigo Renato Suzuki, fotógrafo, imortalizou a numa foto que se Deus quiser um dia será apagada de seu computador.
Algo semelhante, graças a Deus nenhum jogador de capoeira me agarrou no Mercado Modelo, ocorreu em Salvador.
Por isso quando olho de longe e vejo um monte de lojinhas minha testa começa a suar, fico tenso e meu prazer em estar ali começa a se esvair.
Tudo bem, tudo bem, a grande maioria adora isso, eu devo ser especialmente chato, mas creio que mesmo para a maioria existe um limite do tolerável.
Quando paramos em Tiradentes e vi as lojinhas...
O pouco tempo que tinhamos ali não dava para realizar grandes proezas históricas/arqueológicas/literárias, dava para ver as lojinhas apenas. E a grande maioria delas com preços exorbitantes vendendo artigos com pouca ou nenhuma identificação com a cidade: bonecas de cabaça a R$300,00, jóias em prata por outras centenas de reais, mas pouco que me contasse mais sobre a cidade e sua gente.
Fiquei um tanto decepcionado. Não ocorreu a epifania que meus amigos diziam que ocorreria quando eu finalmente fosse às cidades históricas de Minas Gerais, o céu não se abriu e o Senhor não falou comigo. Talvez tenham sido os coches que a cada dois minutos quase me atropelavam nas ruas.
De resto, tentando bloquear essas questões, a cidade é gostosa e deve ser melhor ainda mais vazia. Pequenina, uma das "caçulas" das cidades históricas. Surgiu no meio do caminho entre as áreas mais importantes de exploração de ouro no século XVIII e o Rio de Janeiro, por onde ele era escoado para a Europa.
E tecnicamente não posso mais dizer que jamais fui as cidades históricas de Minas Gerais.
enviada por Indiana Silva
16/08/2008 22:05
Inventando tradições: a Tocha e a Pira Olimpica

Os historiadores Eric Hobsbawm e Terence Ranger organizaram há vários anos um livrinho genial hamado "A invenção das tradições".
Nele os dois historiadores, e outros tantos colaboradores, contam como foram inventadas tradições que ao público em geral parecem ter centenas, milahres de anos, mas que, na realidade, são invenções bastante modernas.
Um dos exemplos clássicos, dado se não me engano pelo historiador Hugh Trevor-Hoper, é o das padronagens dos tweeds, os tecidos de lá que são utilizados na confecção dos kilts, os famosos saiotes escoceses. A tradição diz que as padronagens das linhas dos tecidos são características dos clãs escoceses (lembram-se do primeiro Highlander? Do protagonista correndo com seu saiote pelas terras altas?), como brasões, e que seriam quase imemoriais, vindas de tempos remotos, da formação das grandes famílias (os clãs). Conversa fiada, os tweeds e suas padronagens são invenção da época da Revolução Industrial, não distintivos da Idade Média.
Pois é, o mundo é cheio de "tradições" inventadas. As Olimpiadas, tais como foram definidas pelo Barão Pierre de Coubertin e seus sucessores, é uma fábrica de "tradições". è hino olímpico pra cá, maratona encerrando os jogos para lá, bandeira de cinco aros, gregos abrindo a cerimônia e a dupla infalível: Tocha e Pira Olímpicas.
Tudo bem, tudo bem. Não tenho nada contra elas, até gosto das tradições inventadas, acho que dão um gostinho todo especial as coisas (para além, é claro, de seus aspectos essenciais como a distinção de grupos, a hierarquização de classes sociais, etc.). Gosto de tweeds e kilts, e até gosto do primeiro Highlander. Gosto da pira olímpica e da tocha que carrega o "fogo sagrado", rsrs.
O fato é que o Barão de Coubertin teve a idéia de usar uma tocha que buscasse uma centelha do fogo sagrado na cidade de Olímpia na Grécia e a transportasse até o local dos jogos inspirado nos antigos rituais religiosos do mundo grego antigo.
Um historiador francês do século XIX, de nome curioso aliás, Fustel de Coulanges, produziu uma pequena jóia da literatura chamada "A cidade antiga". Neste livro, um clássico absoluto sobre o mundo antigo, Fustel descreve o início do culto ao fogo doméstico, origem das cerimônias religiosas nas quais Coubertin se inspirou.
O fato é que o domínio do fogo pelo ser humano demorou muito tempo e de todas as tecnologias foi uma das mais decisivas na vitória da espécie na luta pela sobrevivência. A religiosidade dos antigos gregos e romanos, os quais em seus tempos primordiais eram nada mais do que grupos tribais, evoluiu mantendo os cultos ao fogo.
Cada casa mantinha uma pequena lareira com fogo que jamais se extinguia. É claro que para isso sempre havia alguém responsável pela observação, e se apagasse dá-lhe uma sova.
Esse fogo familiar era algo prático, necessário, mas também simbólico, representando a própria chama da vida da família.
Mas não era apenas entre gregos e romanos que o fogo possuia lugar privilegiado na religião: entre os hebreus, entre os hindus (de diversas linhagens religiosas), entre os nativos americanos também tinha - e tem - o fogo lugar central.
Nos rituais religiosos romanos, já em tempos de religião pública e não mais familiar, existiam sacerdotisas do fogo, as vestais, as quais opravam os práticas mágicas envolvendo esse elemento e possuiam a obrigação de jamais deixá-lo morrer.
Foi inspirado em toda essa importância e simbologia que os criadores das Olimpiadas da Era Moderna inventaram a tradição da tocha e da pira olímpica, as quais trazem parte da simbologia antiga.
Diga-se de passagem que achei que, neste ano, a tocha ia apagar a qualquer momento naquele troca troca no estádio olímpico. E lá ia um atleta chinês com uma tocha na mão que parecia rojão de São João e puxava uma trava igual uma granada. Pensava eu: Vai dar m...!!
Não deu, para a felicidade de todos e a manutenção das tradições inventadas.
Conto depois um dos mitos mais importantes para a cultura grega e que está diretamente associado ao fogo.
enviada por Indiana Silva
13/08/2008 22:49
Olimpiadas de Munique 1972
Na noite de 05 de setembro de 1972, no meio dos Jogos Olimpicos de Munique, na então Alemanha Ocidental, um grupo de terroristas de um grupo árabe chamado Setembro Negro invadiu a Vila Olimpica.
Eles seguiram em direção ao alojamento da delegação israelense. Na tentativa de entrar mataram dois atletas que perceberam o intento dos invasores e resistiram. Os outros nove atletas da delegação froam feitos reféns.
Um longo cerco se armou aos terroristas e seus reféns. Depois de muita negociação foi cedido um helicoptero que levaria terroristas e reféns até o aeroporto, onde fugiriam para o Oriente Médio.
O helicoptero, do exercito alemão, pousou e os terroristas chegaram em viaturas com seus reféns. No translado para o helicoptero os atiradores de elite do grupo de resgate dispararam contra os terroristas, mas não os mataram. No desespero os sequestradores atiraram contra os reféns e detonaram uma granada dentro do helicoptero. Terroristas, soldados e reféns foram todos pelos ares. Todos os atletas foram mortos numa das mais desastradas tentativas de resgate da história.
Os jogos foram paralisados diante de um mundo atônito. 34 horas depois foram reiniciados, mas a inocência dos jogos havia sido perdida definitivamente.
Depois de Munique a preocupação com o terrorismo se tornou um pesadelo em todos os jogos olimpicos, e cada vez mais.
Em verdade o Setembro Negro jamais existiu, era um nome fantasioso para um grupo que agia sob comando de Yasser Arafat, lider da resistência palestina contra o estado de Israel. Do mesmo jeito que o grupo surgiu ele desapareceu depois de poucas ações.
Há alguns anos o cineasta Steven Spielberg filmou "Munique", filme que conta os episódios ocrridos em setembro de 1972 a a subsequente caça aos membros que planejaram e financiaram o atentado.
O governo israelense, na época presidido pela primeira ministra Golda Meyr, ordenou a caça e a execução a qualquer preço dos mentores e financiadores do ataque aos atletas.
Apesar das críticas acho um filme muito bom, sensível e não maniqueísta. Não trata dos "bonzinhos" contra os "maus", mas questiona o bem e o mal que existe em cada um de nós.
Triste, irônico, mas realista quer isso tenha se dado justamente no evento que é tido como o "congraçamento dos povos".
enviada por Indiana Silva
11/08/2008 10:13
Olimpiadas e política
Uma coisa é o discurso, outra é a prática.
Em todas aberturas de Jogos Olimpicos o presidente do Comitê Mundial, bem como dos comitês organizadores, chefes de estado, etc, insistem que as Olimpiadas são um momento de confraternização dos povos, um disputa pela superação humana, a celebração do esporte como agregador da humanidade. Quase ninguém acredita nisso, principalmente os que discursam dizendo isso.
Ao longo dos mais de 100 anos das Olimpiadas da era moderna ficou mais do que comprovado o caráter político de tais jogos. Seja nos boicotes estadunidense e soviético durante os anos de Guerra Fria (boicotaram-se mutuamente em Moscou 1980 e Los Angeles 1984), seja pelo trágico sequestro e assassinato dos atletas israelenses em Munique, ou pela raiva provocada em Adolf Hitler quando o corredor negro estadunidense Jesse Owens venceu em Berlim, 1936, os corredores brancos, os jogos ganharam cores políticas cada vez mais fortes.
Nas últimas décadas as Olimpiadas demonstraram ainda uma outra face da política, num mundo não mais polarizado entre os EUA e a URSS: a disputa econômica.
Escândalos de suborno foram abafados para não manchar o "espírito olímpico", mas é público e notório, por exemplo, o investimento que o Comitê Organizador dos jogos de Atlanta fez em gordas propinas pagas aos presidentes de muitas associações desportivas internacionais e delegados que votariam na escolha da cidade sede.
Receber uma Olimpiada, além da dor de cabeça, significa investimento de bilhões e outros tantos em gastos com turismo e deslocamento das delegações, sem contar no licenciamento de produtos.
Não acho isso um problema, mas deve ser dito, pois são fatores mais importantes do que a poluição de Beijing ou a violência do Rio de Janeiro na escolha de uma cidade sede.
O fato é que os Jogos Olimpicos mesmo no mundo grego antigo tinham um caráter político acentuado. Um das diferenças entre os jogos antigos e os modernos é o caráter religioso que os primeiros possuiam, não a ausência da política.
Ter um vencedor numa das provas em homenagem a Zeus significa glorificar a cidade de origem do mesmo, era uma prova da superioridade de seus cidadãos. A guerra, lá como cá, não se fazia apenas de armas em punho, mas com a criação do imaginário de "super-potências", manifestadas na habilidade de seus representantes.
Nenhuma alusão direta ao que os EUA fazem com jovens como Michael Phelps, mas apenas direta. As coincidências não existem em absoluto.
Em suma: não é possível dissociar as Olímpiadas do caráter político que as acompanham, tanto no mundo grego antigo quanto hoje. Que o digam, agora, os chineses.
enviada por Indiana Silva
07/08/2008 08:38
Primeiro de Agosto de 1914, o início da 1 Guerra Mundial

A 1 de agosto de 1914 teve início o conflito armado mais traumático da história recente.
Muitos, e eu mesmo durante muto tempo, imaginam que a Segunda Guerra Mundial foi o evento bélico mais significativo e traumático da história contemporânea.
Esse imaginário se formou graças a diversos motivos: ao fato de ter o nazi-fascismo como inimigo direto, por causa do genocídio contra judeus, ciganos, etc, por conta do mundo pós Guerra dividido em dois gigantescos blocos.
Obviamente que ninguém está estabelecendo uma disputa entre qual foi o pior conflito da história, para os afetados - direta e indiretamente - por cada um dos conflitos isso é uma indignidade e um desrespeito com o sofrimento do outro.
Mas trata-se de uma mudança de parâmetro, de escala de conflito, de impacto sobre as populações.
Quando estourou a Primeira Guerra Mundial o mundo ocidental vinha do chamado "século burguês" ou da "era das luzes". Após as revoluções burguesas no final do século XVIII e dos conflitos até meados do XIX, a Europa havia entrado em uma era de relativa estabilidade.
Mesmo os conflitos gerados pelo surgimento do movimento operário e do comunismo criavam conflitos locais e curtos, sem ameaçar a estabilidade a médio prazo.
Esse período foi marcado por uma constante revolução tecnológica, por uma certa arrogância científica no qual se ufanava dos feitos humanos. O luxo financiado com dinheiro da burguesia em expansão invadia os salões fazendo reviver quase o esplendor da nobreza antes das revoluções do final do século XVIII e começo do XIX.
A Guerra Frnco-Prussiana foi um prelúdio do que viria a partir de 1914, mas ninguém podia saber disso. Quando o assassinato do Arquiduque Frederico Ferdinando da Áustria-Hungria, em Sarajevo, precipitou os acontecimentos que fizeram eclodir a guerra apenas parte das pessoas tinha noção de como suas vidas, e o mundo, mudariam radicalmente.
Até o começo da Primeira Guerra Mundial os conflitos eram contados em dezenas, as vezes centenas de milhares de mortos, dessa vez eles seriam contados em milhões.
Cargas de cavalaria - de Hussardos - investiam contra tanques, grupos de guardas eram bombardeados por aviões ou queimavam sob efeito de gases mortíferos, invenções do tal "progresso científico" que fazia o orgulho da burguesia européia.
A Primeira Guerra Mundial foi um rito de passagem do mundo contemporâneo, foi a perda definitiva da inocência. Um estadista disse "as luzes da Europa se apagaram e não voltaremos a vê-las se acenderem nesta vida". Estava certo.
Hoje cresce a adesão dos historiadores a interpretação que vê as duas Guerras Mundiais como um único conflito, separados por um armistício de duas décadas. Em verdade a Segunda Guerra Mundial tinha seus motivos em grande medida, mas não somente, ligados diretamente ao revanchismo das nações perdedoras do primeiro conflito, humilhadas e deixadas em situação precária pelos vencedores.
Recentemente foi lançado um filme sobre o primeiro natal passado nas trincheiras entre a França e a Alemanha na Primeira Guerra Mundial: "Feliz Natal" (Joyeux Nöel). Lindo, um dos melhores filmes que vi em alguns anos.
Naquele Natal de 1914 as tropas presas nas trincheiras saíram para confraternizar e realizar uma trégua natalina - o que foi verdade -, o filme aborda a guerra sem ser um "filme de guerra", com muita sensibilidade e sem os maniqueísmos que geralmente imperam nos filmes de conflitos.
Para quem quiser dar uma olhada mais a fundo na história do conflito recomendo "História ilustrada da Primeira Guerra Mundial" de John Keegan, "A Sagração da Primavera" de Modris Eksteins e o acompanhamento jornalístico feito por Julio de Mesquita na Europa e editado há alguns anos em quatro volumes fartamente ilustrados.
Quem preferir romance pode ler "Nada de novo no front" de Erich Maria Remarque ou "Adeus às armas" de Ernst Hemingway, ambos maravilhosos.
enviada por Indiana Silva
05/08/2008 09:57
Agosto, mês do desgosto?

Diz o ditado popular que "Agosto é o mês do desgosto".
Uma lista das tragédias ocorridas neste mês seria extensa, mas não mais extensa do que uma lista de tragédias ocorridas em qualquer outro mês do ano, de fato temos desgraças suficientes para preencher todo o ano.
Mas, reforçando a idéia de ser o "mês do cachorro louco", Agosto efetivamente foi o mês de alguns eventos que chocaram o mundo no século XX.
Acrescente-se a isso o fato de ser o primeiro século da humanidade com larga cobertura jornalistica, por radio e televisão principalmente, os quais forneceram sons e imagens chocantes dos eventos. Até então as pessoas imaginavam as tragédias ou podiam contar com pinturas realizadas sob encomenda para os jornais.
A própria fotografia demorou para se tornar algo pratico, movel e rápido para poder acompanhar a velocidade dos ocorridos.
Uma das imagens mais chocantes, ao menos para mim, é a do grande cogumelo nuclear sobre a cidade japonesa de Hiroshima (hoje seria bem pequeno perto dos artefatos criados desde então).
Lembro-me do dia 11 de Setembro, quando as Torres Gêmeas de Nova Iorque foram destruidas pelos ataques terroristas, que cheguei para minha aula de História Medieval na USP e nosso professor disse que não iria se manifestar a respeito, posto que se alguém inventou o terrorismo no século XX esse alguém foram os Estados Unidos quando lançaram duas bombas atômicas sobre populações civis e sem capacidade de defesa.
Obviamente que tal pensamento é algo distorcido, mesmo porque um ato de barbárie contra populações civis não justifica outro.
Eric Hobsbawm, o historiador inglês, comentava em seu livro "A era dos extremos: o breve século XX" que de cada dez mortos em conflitos durante o século nove deles estavam desarmados. Assim como as populações de Hiroshima, Nagasaki e Nova Iorque.
De qualquer forma foi no dia 6 de Agosto de 1945 que o avião Enola Gay vôou sobre o Japão e lançou "Little Boy" (o "menininho") em Hiroshima.
O resultado conhecemos bem. Centenas de milhares de mortos desimados quase instantaneamente (256.000), outras centenas de milhares sequeladas nas décadas seguintes, muitos com efeitos nefastos da radiação em si e em seus descendentes. Poucos dias depois foi a vez da cidade de Nagasaki.
Os técnicos e cientistas estadunidenses (com ajuda dos melhores cérebros europeus) sabiam bem o potencial destrutivo da nova arma, desenvolvida, aliás, para contrapor o poder alemão.
Mas rapidamente, diante da derrota alemã, o Japão se tornou o alvo, inclusive como vingança pelo ataque a Pearl Harbor. Além do mais enviava-se uma mensagem para a União Soviética.
Dizem, alguns, que os aliados não teriam coragem de lançar uma arma tão maligna sobre a Europa, mas sobre asiáticos os estadunidenses se sentiram mais a vontade. Difícil de provar, o jogo de circunstâncias e a cronologia dos eventos não demonstra com clareza tal possibilidade, mas é uma situação tão crível que mesmo que não seja verdade muita gente passou a crer nisso.
enviada por Indiana Silva
03/08/2008 08:21
Desaparecimento do folclore??
Durante esses últimos anos tive o privilégio de poder viajar pelas mais diversas regiões do país. Estive no sertão nordestino, em várias de suas regiões litorâneas, no centro-oeste durante quase um ano todo, nos vales do Paraíba e do Ribeira em São Paulo, nas Minas Gerais, na região serrana do Rio de Janeiro, no extremo sul e no extremo oeste, desci os rios Negro e Amazonas.
Muitas vezes, às vésperas de sair a campo, nas regiões mais remotas do país, eu ouvia alguém dizer que ou eu ia encontrar uma realidade muito rústica, quase um retrato de um tempo passado, ou que encontraria uma situação plenamente desconfigurada, uma imitação de segunda categoria das grandes cidades brasileiras. Em resumo, que eu encontraria culturas em processo de desagregação ou, senão, materializações das histórias de Monteiro Lobato.
Ariano Suassuna, o grande escritor, disse certa vez que viu durante décadas pesquisadores irem ao nordeste e dizerem que o cordel estava morrendo. Pois todos eles haviam morrido e o cordel continuava vivo. Ariano é um defensor ferrenho das culturas populares e um fiel de sua capacidade de sobrevivência.
Tal defesa de Ariano não vem de uma questão somente ideológica, mas de uma ideologia constituida a partir da observação cotidiana das culturas populares.
E nisso concordo plenamente com ele.
Jamais encontrei por onde andei nem uma coisa nem outra das que me diziam que eu encontraria: nem lugares onde a cultura popular havia morrido, nem lugares onde estivesse congelada no tempo.
As culturas são dinâmicas, isso é a essência delas e sua garantia de sobrevivência. Se não fosse assim ainda estaríamos a lascar pedras como nossos ancestrais de centenas de milhares de anos. Cultura é essencialmente uma arte de mudar. Mas, apesar das mudanças, as culturas são capazes de manter o essencial, o que ainda serve, é útil e faz sentido.
O problema para aqueles que vêem o tempo todo uma "morte das culturas populares" é que aprenderam em manuais antigos "como" eram essas culturas e não "porque" ou "de que modo" essas culturas se processavam diariamente. Se prenderam as formas e não aos coteúdos. Ai ficaram a procurar gente que crê em Caiporas e Curupiras, que ainda tem as maleitas descritas por Monteiro Lobato para seu Jeca Tatú.
Talvez para o imaginário os espaços tenham ficado mais estreitos. Hoje há mais luz, mais televisão, menos fé em alguns aspectos, mais ciência e sobrou menos espaço para as chamadas "crenças populares". Mesmo assim sempre vi nas comunidades uma fé tradicional muito arraigada, mesmo quando as pessoas mudam de igreja ou de religião.
Conheci gente também que mora em grandes cidades, que estudou, que trabalha em indústrias e vê televisão, mas morre de medo das "visagens" que ocorrem aos viajantes noturnos no extremo norte ou no centro-oeste.
Como Ariano Suassuna tenho certeza que as culturas populares, ou se quisermos chamar de "folclore", jamais desaparecerá. Simplesmente porque é a essência da sobrevivência das culturas, daquilo que faz os humanos serem humanos.
enviada por Indiana Silva
30/07/2008 20:16
Para ler sobre folclore: Mikhail Bakhtin

Ele, provavelmente, detestaria ter um livro seu tido como "sobre folclore", mas vou justificar a inclusão.
Mikhail Bakhtin em verdade era filósofo da linguagem, ou linguísta, mas seus trabalhos foram tão revolucionários e tão profundos que transcenderam qualquer classificação tradicional: são de história, de linguística, de literatura, de antropologia.
Preferia o termo "cultura popular" ao invés de folclore por achar o termo incorreto ou pejorativo. Seu livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais promoveu uma reviravolta em muitas áreas.
Em primeiro lugar, de forma mais imediata, inovou no tratamento das obras do escritor francês François Rabelais, como Gargântua e Pantagruel, autor clássico da língua francesa, uma "pedra de toque" dessa cultura, mais ou menos como para nós é Gil Vicente e Gregório de Matos.
Tantos autores já haviam se ocupado da obra de Rabelais, inclusive Lucien Febvre, um dos pais da Escola Histórica-Geográfica Francesa dos Annales. Mas Bakhtin propôs um modo alternativo de ver a obra de Rabelais, substituindo sua personalidade de suposto "incrédulo" ou "ateu" pela de autor "medieval", inserido no universo do burlesco, do escatológico, do cômico mundano das ruas e feiras medievais. Contudo, letrado, escritor que transitava entre as elites, um ela de ligação entre as culturas populares e as elites no espaço temporal que opera a transição entre a Idade Média e o Renascimento.
A segunda proposição de Bakhtin que fez estremecer o chão dos academicos foi a de que as culturas populares e as elites não compõem universos distintos e plenamente separados. Estão ligadas, sim, por um complexo sistema de trocas e inversões nos quais traços culturais de um e outro trocam de lado e são re-interpretados livremente.
Essa idéia seminal de Bakhtin frutificou nos estudos de cultura e fez escola. Sua influência é clara em inúmeros pesquisadores consagrados que vieram na sua sequência.
De quebra, o pesquisador russo ainda estabeleu todo um sistema explicativo para o riso e o cômico popular, baseado na observação do riso dos bufões e dos palhaços populares.
Por isso Bakhtin é fundamental para quem quer saber mais sobre "folclore", ou, como preferia, "culturas populares".
enviada por Indiana Silva
28/07/2008 09:37
Folclore, cultura e pensamento no modernismo brasileiro
O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre costumava dizer que o modernismo que ele encabeçava no nordeste era o verdadeiro modernismo brasileiro, e não o paulista de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Alcântara Machado, Oswald de Andrade e tantos outros.
Para ele o modernismo paulista era cheio de estrangeirismos que fugiam completamente ao que deveria ser a base do movimento: um resgate modernizador das raizes culturais nacionais.
Em verdade, parte da implicância de Freyre se devia a extrema vaidade que o acompanhou por toda a vida, qualquer disputa por atenção desagradava-o profundamente. Mesmo tendo escrito Casa Grande e Senzala mais de uma década após a Semana de Arte de 1922, o grande momento do modernismo em São Paulo, o movimento liderado por Mário de Andrade e seus companheiros continuava a ser o mais influente no âmbito da cultura brasileira, ao menos no que diz respeito a suas elites.
Mas, divergências a parte, ambos os movimentos - os modernismos paulista, pernambucano - partiam de um mesmo pressuposto.
Para ambos a cultura brasileira necessitava ao mesmo tempo se projetar para o futuro, romper com a tradição academicista, que imperara no século XIX, e resgatar as verdadeiras (na opinião deles) raízes da cultura nacional.
Ao longo do século XIX o que chamaríamos de "produção cultural" brasileira (musica erudita, literatura, artes plásticas, arquitetura) tinha sido inundada por uma enxurrada de artístas, técnicas, escolas e pensamentos europeus. Basta lembrarmos da chegada da Missão Artística Francesa, a qual foi fundamental para a criação da escola de belas artes no Rio de Janeiro.
Nossa pintura era de feição de um Benedito Calixto, de um Almeida Jr., nossa música erudita era Carlos Gomes, a literatura - excetuando os virtuoses, como um Machado de Assis - reproduzia igualmente as escolas europeias, sobretudo os modismos franceses. A arquitetura classicista, inspirada também nos franceses.
Por isso o surgimento do modernismo no Brasil, bem como em boa parte do mundo, partiu do rompimento com essas escolas estéticas européias do século XIX. E também da busca por uma "identidade nacional".
É claro que conceitos como "identidade" e "nação" são extremamente complexos, mas no contexto de um movimento artístico e intelectual que não queria ser acadêmico essa não era a preocupação central. Mais importante era encontrar aquilo que nos remetesse a nossa identidade brasileira, não ficar matutando sobre o que era isso.
A solução dos modernistas, tanto em São Paulo quanto no Nordeste, foi buscar as "raízes" brasileiras naquilo que havia antes na "invasão cultural francesa" do século XIX ou naquilo que havia sobrevivido a ela, nos rincões mais afastados do país.
Se essa invasão cultural havia começado com o Império Brasileiro, no começo do século XIX, então uma das opções era ir em direção ao nosso passado colonial. Se os "francesismos" haviam se assentado mais nas grandes cidades a outra solução era ir em direção aos hábitos, culturas, práticas do interior.
Esses dois traços foram os pílares do pensamento cultural brasileiro ao longo do século XX. Basta darmos uma olhada panorâmica em como ainda nos comportamos diante da cultura brasileira.
Quando criaram o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no primeiro governo de Getúlio Vargas, sob influência modernista os primeiros edifícios a serem reconhecidos como patrimônio nacional foram justamente os que se remetiam ao período colonial, e ainda mais, ao barroco, tido como o ápice da estética portuguesa colonial. Nas academias, rapidamente, as cadeiras de Brasil Colônia se tornaram as mais influentes e as que atrairam os nomes mais influentes da intelectualidade brasileira. Efeitos do pensamento modernista.
Era certo que nessa busca por uma identidade, por uma raíz nacional, os modernistas se deparassem com aquilo que passou a ser conhecido como "folclore" brasileiro.
E foram em grupo em direção a essas matrizes: Mário de Andrade foi em busca de seu Macunaíma (um tema mitológico), Tarsila atrás de Abaporu (o emblema da "antropofagia cultural", do devorar a si mesmo para produzir outra coisa), Villa-Lobos compôs suas Bachianas Brasileiras empregando temas regionais, cirandas, sambas, choros.
Mas, para o grupo de Mario de Andrade, esse processo comportava bem as influências estrangeiras, era apenas uma questão de digerir o que fosse interessante, processar, e excluir o que não fosse, a "antropofagia". Para outros, como Freyre, essa assimilação de elementos estrangeiros era algo menos radical do que uma recusa maior, como ele preferia.
De fato uma recusa plena era impossível, até porque a própria idéia de modernismo não era "brasileira". De qualquer forma foi o movimento cultural mais influente do século XX no Brasil e base para as mentalidades da produção e gestão cultural brasileira. Também foi o grande responsável por uma certa reabilitação das culturas populares, até então tidas como responsáveis pelo atraso brasileiro. De roldão o folclore deixou de ser, parcialmente, signo de gente "atrasada" para se tornar uma espécie de "vedete cultural".
enviada por Indiana Silva
24/07/2008 14:37
Leituras sobre o folclore

Algumas dicas de leitura para quem quer conhecer um pouco mais sobre "folclore" ou sobre "cultura popular", como prefiro.
Estar acompanhado por bons livros, com boas reflexões sobre um tema é uma ótimo ponto de partida para qualquer incursão sobre um universo de conhecimento.
Tanto no Brasil quanto no exterior o tema "folclore", bem como "cultura popular", foi fartamente discutido ao longo de quase dois séculos de pensamento sobre o assunto. Coisas muito bacanas surgiram e outras nem um pouco. Mas é sempre melhor falar das coisas boas que foram produzidas sobre um assunto.
No caso brasileiro, sem a menor dúvida, o principal nome quando se trata de folclore e cultura popular é Luis da Câmara Cascudo. O escritor se debruçou sobre o tema ao longo de toda uma vida e produziu uma obra absolutamente fantástica. Nenhum outro pensador brasileiro produziu uma obra tão abrangente sobre nossas culturas populares.
Algumas de suas obras se tornaram clássicas, tanto pela força das idéias, quanto pela extensão do trabalho ou mesmo pelo pioneirismo.
Civilização e cultura é uma densa investigação, a moda da antropologia e da arqueologia, sobre o nascimento e a formação da cultura como traço distintivo da espécie humana. Hoje, passadas muitas décadas de sua publicação, arqueólogos e antropólogos do mundo todo continuam engalfinhados no tema, mas a análise de Cascudo não deve nada, pela época em que se escreveu, aos trabalhos mais recentes.
História da alimentação no Brasil é um trabalho pioneiro, numa época em que alimentação era tema somente de cozinheiras. Sua incursão pelo universo da cultura do que vai a boca é fantástica. Até o relançamento da obra, há alguns anos, o livro era vendido a preço de ouro nos sebos. leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema alimentação.
Dicionário do folcore brasileiro é uma obra de referência a qual sempre retorno, atualizado e aumentado recentemente - para a nova edição - o livro continua a ser um dos melhores salva-vidas para quem precisa de uma informação correta e rápida a respeito de alguma manifestação folclorica brasileira.
Mas há muito mais, Cascudo escreveu obras sobre artigos culturais brasileiros específicos (jangadas, redes, cachaça), sobre tecnicas vocais (Vaqueiros e cantadores, Literatura oral no Brasil, Locuções tradicionais, etc), e muito mais.
Muita gente acusou Câmara Cascudo de ser direitista, autoritário e adepto do Integralismo. Muita gente foi, e, nos anos de 1930 no Brasil, era difícil dicernir com clareza os lados políticos em disputa.
Independentemente das cores políticas de Cascudo sua obra é leve, generosa, sem qualquer traço de preconceito ou discriminação. Pelo contrário, sempre foi um entusiasta do caldeirão cultural brasileiro.
É a primeira e uma das mais fortes referências para quem quer saber mais sobre folclore.
enviada por Indiana Silva
22/07/2008 21:17
O que é "folclore"?

Pois é!! Quem pensou que eu iria fazer um posto sobre o folclore com uma imagem do Saci Pererê, ou da Iara (jamais esquecendo a importância indelével dessas figuras para a constituição da cultura nacional, rsrs), do Curupira ou do Boitatá, se enganou redondamente.
E isso tem um porquê.
Apesar de achar que quem chegou até este blog já sabe, tenho de referenciar: folclore é um neologismo da língua portuguesa, formado a partir de duas palavras inglesas, folk e lore. Literalmente isso significa "saber do povo" ou algo bem próximo disso segundo cada linguísta.
O problema não está exatamente nas palavra em si, mas nas livres interpretações que se deram a ela ao longo do tempo. Nos Estados Unidos da América um tipo de música muito influente é o chamado "folk", o qual influenciou muitos músicos, como Bob Dylan, Janis Joplin, Simon and Garfunkel, James Taylor, etc.
Mas se colocamos esses músicos ao lado do Saci Pererê (pois ambos estão associados ao prefixo "folk") um certo estranhamento vai ficar. Por quê?
Pois quando usamos "folk" para designar um estilo musical ele nos remete a idéia de "popular", "raíz", quando "folk" está associado a mentalidades, técnicas, práticas, aprendemos a associá-lo a idéia de "popular", "curioso", "antigo".
Nada mais equivocado.
Eu evito usar o termo "folclorico" ou "folclore" para designar conhecimento ou mentalidades das populações. A questão é relativamente simples: se folclore é aquilo que diz respeito ao conhecimento popular, e popular é aquilo que vem do povo - e eu me considero "povo" - então teria de considerar que tudo o que faço ou penso é "folclore".
Mas, em geral, costumamos achar que "folclore" é aquilo que se remete ao universo de povos tradicionais, como sertanejos, caipiras, caboclos, etc. Coisas como comidas tradicionais, lendas, mitos.
Em verdade essa definição de "folclore" é relativamente recente, data do século XIX, quando pesquisadores começaram a investigar - em busca de uma idéia de "origem", de raíz" - o passado de seus povos, sobretudo na Europa.
Mas, ao mesmo tempo em que queriam encontrar raízes de um passado que lhes desse um sentimento de pertencimento, uma identidade, eles queriam se distanciar disso, queriam se mostrar como modernos, avançados. Dai foi sendo construída essa idéia, de que o folclore é algo que é popular, mas é algo de origem, do passado, algo que nos dá uma certa identidade, mas do qual não compartilhamos mais, senão como lembrança.
Essa idéia se tornou algo tão forte, dão difundido que mesmo depois de quase um século de crítica a ela ainda não foi derrubada.
Mas, se formos entender "folclore" como o "saber popular" das duas uma: ou mudamos nossa forma de ver o que é popular e como nós nos relacionamos com isso (enquanto "povo"", ou encontramos uma palavra um tanto melhor para definir as coisas.
enviada por Indiana Silva
20/07/2008 10:49
Entre a história acontecimento e a história interpretação
Algumas discussões ocorridas neste espaço ao longo de sua existência acabaram por me levar a uma indagação: o que elas teriam em comum, ainda que envolvendo assuntos tão distintos como imigração, Revoluções, lugares pelo Brasil a fora ou mesmo a rotina do viajante?
Cheguei a uma possibilidade de entendimento que, em verdade, abre uma discussão a respeito das relações entre ciência, fé e verdade e o papel da história dentro desse universo de relações.
Parte significativa dos problemas envolvidos aqui começam no sistema educacional. Infelizmente isso não é uma exclusividade brasileira, ou de países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Uma pesquisa, realizada há alguns anos, demonstrava que parte significativa da população dos Estados Unidos não sabia que era a terra que girava ao redor do sol e não vice-versa. Os alunos normais franceses sabem menos a respeito da Revolução Francesa do que alunos de outros países.
O físico Carl Sagan, quando escreveu O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, denunciava isso: uma comunidade global que não conseguia se relacionar com a ciência a disposição.
É claro, a ciência NÂO é uma VERDADE ABSOLUTA, a proposta dela é justamente o contrário, é se colocar a prova o tempo todo. Uma interpretação científica somente sobrevive a medida em que, colocada a prova, consiga se sustentar. Se um pedaço de pão escapa da minha mão e não cai, em condições normais, então deveremos rever os príncios de Isaac Newton a respeito da Lei da Gravitação. Como isso não acontece continuamos a achar as idéias newtonianas boas, pelo menos para nosso cotidiano imediato.
Existem cientistas radicais, quase fundamentalistas, como o biólogo Richard Dawkins que acha que qualquer pensamento que não seja o científico é sinal de ignorância e delírio. Não creio que seja assim, e não creio que seja a opinião mais corrente mesmo entre cientistas.
Se preciso tomar uma decisão tecnica, médica, jurídica, vou me ater a ciência. Quero uma opinião científica sobre se devo me operar ou não, se devo trocar o freio do meu carro, se devo e posso processar quem me caluniou, mas posso conviver achando que há mais do que isso por trás. São Tomás de Aquino dizia que a ciência fortalece a fé e não a nega.
Mas com a história as coisas parecem ainda mais complicadas, pois as pessoas - a maioria pelo menos - pensa que a história seja ou algo objetivo (como imaginam que a ciência seja) ou algo absolutamente subjetivo (como são as "histórias", as quais cada um tem uma). Entre os dois extremos a história fica num terreno de ninguém, sob pesada fuzilaria.
Uma consideração de Dráusio Varela ao final do Estação Carandiru me parece ser interessante, dizia ele, sobre o massacre dos 111 presos no presídio: existe a "verdade" dos presos, a da polícia e a Deus, dessas só tive acesso à dos presos.
Uma das dimensões que quem trabalha com história tem que trabalhar constantemente é justamente a que nos diz que a verdade do "fato", do "ocorrido", jamais nos será entregue, se é que ela existe. Além do mais, a "verdade" a respeito de algo é a de quem invadiu ou de quem foi invadido? De quem venceu ou de quem perdeu? De quem dirigia uma reunião ou de quem servia café naquele dia?
Essa margem de discussão, entre as versões a respeito de algo, não comporta a desonestidade, a ética de quem pesquisa e escreve. Mesmo que aquilo que chamamos de "verdade" seja uma convenção ela precisa funcionar, precisa se submeter a prova. Não posso dizer que Fernando Collor de Mello não renunciou à presidência da República após a abertura de um processo no Congresso contra ele, acusando-o de práticas ilícitas e pedindo sua cassação. Isto é uma "verdade" consensual. Geralmente as disputas na história e nas ciências em geral se dão nas filigranas do fato e não nele em si.
Collor foi vítima de uma conspiração? Ele realmente era culpado? Derrubaram ele por motivos obscuros os quais nem sequer sabemos? Isso tudo é passível de discussão, mediante a apresentação de provas.
Nisso a história é igual às demais ciências: toda interpretação depende de ser colocada a prova para ser aceita. Uma interpretação aceita se mantém enquanto outra melhor não surgir. E a cada dia que passa essas interpretações são postas a prova, e a medida em que não dão mais conta do recado vão decaíndo, até desaparecerem, num processo longo. Até mesmo porque idéias que caíram podem sobreviver durante muito tempo em grupos específicos, ou mesmo na maioria, quando as academias, onde se produz parte do conhecimento científico, não fazem sua obrigação que é a de interagir com a sociedade.
Eu sei, todo esse processo pode parecer complicado, mas também é divertido, e necessário.
enviada por Indiana Silva
18/07/2008 09:34
18 de julho de 1936
18 de julho de 1936 foi um daqueles dias em que os desejos de lembrar e esquecer convivem íntimamente.
Naquele dia o General Franco deu um golpe de estado derrubando o governo repúblicano democraticamente eleito na Espanha e iniciando uma ditadura que duraria décadas.
Com o golpe comunistas, anarquistas e simpatizantes de todas as partes do mundo se mobilizaram para garantir a retomado do poder, dando início a Guerra Civil Espanhola.
Além dos motivos óbvios desse dia vergonhoso outro se soma. A Guerra Civil Espanhola foi vencida por Franco com ajuda da aviação alemã, já sob controle do governo nazista. E ninguém intercedeu, nenhum estado com força, na Europa ou nas Américas, tentou deter tal absurdo: nem o golpe de estado, nem a interferência alemã nos assuntos espanhóis.
Deu no que deu.
O silêncio dos estados dito democráticos garantiu a possibilidade de crescimento do poder dos estados nazi-fascistas e, quando se deram conta, os alemães já estavam dentro da Polônia, cerca de três anos depois.
A Guerra Civil Espanhola se notabilizou não só por ter sido a chamada "prévia da II Guerra Mundial", mas por ter sido uma luta heróica e trágica. Com o apoio dos alemães - os quais bombardearam a cidade de Guernica, dando o mote para o famoso quadro de Picasso - a luta na Espanha se tornou deveras desigual e quase desesperada.
Pelos rádios, cotidianamente, simpatizantes dos repúblicanos ouviam as notícias da Guerra pelo mundo afora. Muitos se alistaram como voluntários em batalhões internacionais, como o escritor estadunidense Ernest Hemingway (que depois escreveu Por quem os sinos dobram, inspirado em sua vivência no front espanhol), o fotógrafo Robert Capa (o qual produziu a foto de um soldado republicano levando um tiro no peito no alto de uma montanha), o brasileiro Apolônio de Carvalho (dirigente do Partido Comunista), o inglês George Orwell (autor de 1984), entre tantos e tantos.
As brigadas internacionais, bem como os republicanos, caíram, mas, como disse aqui noutra ocasião, foi a derrota deles que venceu no campo da memória e não a vergonha nazi-facista.
Certa vez, o antropólogo Darcy Ribeiro disse num discurso: "Perdi todas as lutas que travei: tentei salvar os índios e não consegui, tentei criar uma universidade do futuro e nos tomaram ela, tentei melhorar a educação brasileira e me venceram. Mas detestaria estar do lado daqueles que ganharam."
Por esse mesmo motivo lembrar e esquecer a Guerra Civil Espanhola - em seus diversos aspectos - é ainda tão importante.
enviada por Indiana Silva
15/07/2008 17:00
Kublai Khan

Na imagem acima - provavelmente - um funcionário do Grande Khan (título mongol que seria o similar a "imperador") entrega aos irmãos Matteu e Niccolo Polo (pai de Marco Polo) uma placa em ouro com um salvo-conduto autorizando-os a atravessarem o império mongol com segurança e auxílio das autoridades imperiais.
A história é narrada no livro ditado por Marco Polo na cadeia a Rustichelo de Pisa, por isso temos uma idéia do que continha na placa que esta sendo entregue na imagem.
Kublai Khan, um dos maiores governantes da história da China, era neto de Gengis Khan, o famoso conquistador da Ásia. Esta imagem provavelmente se passa em Kambaluc - ou Kambhalic - capital recém criada para o império chinês pelo próprio Kublai Khan.
Kambaluc é a atual Beijing, ou Pequim, como era chamada pelos ocidentais até pouco tempo. Inclivelmente, boa parte das coisas que imaginamos serem chinesas, em verdade, são de origem mongol e incorporadas a China somente após a aconquista dessa por Gengis Khan.
Com a invasão mongol a China passou por um processo de assimilação da cultura mongol, boa parte disso forçado pelos Khans mongóis e seus funcionários designados a administração das inúmeras regiões do vasto império.
Ao longo dos séculos os elementos culturais mongóis passaram a fazer parte de forma tão íntima da China que passamos a vê-los como se sempre tivessem sido chineses, como a própria cidade de Beijing, tão mongol em sua origem.
Foi durante esse período, século XIII, que diversos credos se espalharam pelo império chinês, como o próprio cristianismo. Kublai Khan memso era uma figura curiosa e interessada em credos outros, talvez pelo fato de os mongóis serem de uma cultura muito plástica, de povos nômades, acostumados às mudanças e adaptações frequentes. Um dos episódios mais curiosos da família Polo é justamente o pedido de Kublai para que o Papa lhe envie 100 sábios cristãos para travarem debates com religiosos de outras religiões do império, como budistas, islâmicos e xintoístas.
Tais sábios jamais chegaram a Kambaluc. O recém eleito Papa enviou apenas dois frades franciscanos, os quais fugiram de volta tão logo os irmãos Polo saíram dos limites de influência do cristianismo.
De qualquer forma Kublai Khan foi uma figura interessantíssima e um dos pilares do Império Chinês, tal como ele permaneceu até a Revolução Cultural Chinesa de 1949. É claro que do século XIII ao XX há um longo processo de transformações, mudanças políticas, anexações, perdaes de território, mas os elementos culturais são de transformação mais lenta, e por isso a chegada dos mongóis na China forjou a cultura desta região tal como ela nos chegou.
enviada por Indiana Silva
13/07/2008 10:40
Domingão de pouco sol... em Paranapiacaba é legal!
Domingão é um bom dia para retornar a rotina de tranquilidade. Ok, vão me dizer que tranquilidade e rotina são duas idéias quase incompatíveis. Mas, para mim que detesto desnecesárias e gratuitas, tranquilidade é mesmo minha idéia de rotina.
Nesse domingão de pouco sol, bastante frio, férias escolares, o que fazer? Ir para onde tem menos sol, e mais frio ainda!! É o que faz quem vai a Campos do Jordão e, de alguns anos para cá, para Paranapiacaba.
Há alguns meses postei aqui a respeito da famosa vila inglesa, a qual compõe o conjunto arquitetônico de Paranapiacaba, sub-distrito de Santo André, da região metropolitana de São Paulo.
A vila surgiu em função da construção da Estrada de Ferro São Paulo Railway, a SPR, na segunda metade do século XIX. Depois de uma longa história de idas e vindas, a qual contei no blog, Paranapiacaba foi encampada pela cidade de Santo André, um sonho antigo, e passou por um processo de recuperação, re-ocupação, re-qualificação. E está funcionando.
Há quase uma década começou-se a pensar na idéia de criar em Paranapiacaba um festival de inverno, aproveitando o charme que a eterna neblina e o friozinho atribuem a vila, sem contar a paisagem formosa da serra e das construções antigas.
É claro que no começo o festival ia mais devagar, os retornos eram mais lentos, mas ele se mostrou robusto, em condições de avançar. Junto com isso chegaram novos habitantes, pequenas pousadas, artesãos, enfim, a vila ganhou nova vida.
Agora, depois de décadas de luta, a cidade de Santo André está pleiteando junto a UNESCO o reconhecimento de Paranapiacaba como Patrimônio da Humanidade, o que seria justo e uma coroação das décadas de luta de muitos para - principalmente da prefeitura e da própria comunidade - para injetar nova vida a vila.
Como alguém que atua na área de patrimônio acho bem provável que obtenhamos o reconhecimento, mas isso pode demorar, dependendo do andamento do processo.
De qualquer forma, pegue seu casaco, amigos, parentes, namorados/as, e rume em direção a serra, tenho certeza que a experiência de ver Mawaca, Seu Jorge, Lenine, Marina de La Riva e tantos outros no cenário de Paranapiacaba será inesquecível e valerá muito a pena.
Começou ontem o festival, e vai até o final do mês de julho, sempre nos finais de semana. É só conferir a programação no site de Santo André:
www.santoandre.sp.gov.br
enviada por Indiana Silva
10/07/2008 21:08
Ainda sobre 1932.
Vou gastar um pouco do meu tempo e também dos leitores para esclarecer algumas coisas. Prefiro ocupar meu tempo escrevendo e fazendo coisas bacanas, não respondendo gente raivosa, mas isso se faz necessario as vezes.
Vivemos num país onde o analfabetismo formal diminui, mas aumenta o numero de analfabetos funcionais. Tive o privilégio de ser aluno de um professor na Universidade de São Paulo que no primeiro dia de aula olhou para a classe e disse: Vocês não sabem ler, e vou provar isso!
Passada nossa indignação com tal afirmação fui obrigado, ao longo do curso, com humildade, a concordar com o professor que, embora efetivamente eu fosse alfabetizado, meu aproveitamento do texto era muito inferior ao que poderia ser. Isso há dez anos.
Algumas pessoas me chamaram de "jornalista", coisa que não sou, e isso está logo ai em cima, do lado direito superior de sua tela do computador: sou um historiador, bacharel em história pela Universidade de São Paulo e pós-graduando pela mesma instituição. Não que ache um problema ser jornalista, apenas não sou.
A segunda coisa que acho importante esclarecer é que neste espaço opero uma interlocução entre ciência e difusão científica, entre discussões acadêmicas, das quais participo intensamente por conta de minha carreira, e aquilo que vai no cotidiano das pessoas que não são cientistas. E nisso também não há qualquer problema.
Mas há uma questão, ou algumas questões que permeiam esse universo. A internet é um território livre, às vezes desregulamentado de tão livre. As pessoas se sentem protegidas pelo anonimato dos computadores, e por isso dizem coisas que jamais diriam pessoalmente.
Creio que ninguém se atreveria a gritar na Praça da Sé que os paulistas são "paulixo" ou "otários". Mas as pessoas escrevem isso na internet. Infelizmente só posso lamentar por estas pessoas, as quais, infelizmente, não conhecem o significado de palavras como democracia, liberdade, direito de expressão, cidadania, respeito e educação.
Outro dos problemas é que, ao contrário da física quântica, da bio-química, da engenharia genética, as pessoas discutem história em seus cotidianos, o que acho ótimo por um lado, mas terrível por outro.
O lado terrível disso é que algumas pessoas se esquecem que existem cursos universitários de história, profissionais da área (historiadores), e que a própria história é uma área de especialização do conhecimento humano. Todos tem direito de opinar e questionar, mas não creio ser legítimo colocar em dúvida, baseando-se apenas no senso comum, uma informação dada por alguém formado em uma determinada área do conhecimento.
Quando você precisa operar seu coração consulta um cardiologista ou segue a opinião dos amigos do clube? Infelizmente, com a história não é assim.
Agora somemos a falta de respeito, de educação, de cidadania de algumas pessoas, com sua incapacidade de ler direito as coisas e a arrogância de se pensar "dono da verdade" e teremos comentários como alguns dos que foram feitos neste blog há alguns dias.
Quando cito Getúlio Vargas e Hitler não estou comparando-os, nem a Revolução de 1932 com a II Guerra Mundial ou a resistência francesa. Não me interessam aqui estas questões, as quais creio que, inclusive, são indevidas. Estou comparando o processo de "construção das memórias coletivas" (nesse caso dos paulistas e dos franceses), coisa que, aqueles que escreveram impropérios sequer sabem do que se trata. Basta voltar ao texto e lê-lo com calma e atenção.
Sou paulista de nascimento, apaixonado pelo sertão nordestino, relativamente bom conhecedor do centro-oeste e do norte do Brasil, com muitos amigos em todas essas regiões, bem como no sul e no sudeste. Amigo também, e mais que isso, irmão, de negros, índigenas, latinos de diversas origens, orientais, homossexuais, portadores de necessidades especiais, enfim, de gente comum às quais me ligo apenas mediante um critério: sua limpeza de caráter, seu compromisso com a verdade e comprometimento em construir um mundo melhor.
Discussões a respeito da "identidade paulista", da suposta superioridade deste ou daquele, simplesmente não me interessam. Foi esse tipo de sentimento que, ao longo da história, alimentou toda sorte de massacre, de genocídio, de exploração.
Sobre o fato de 1932 ter sido ou não uma Revolução, poderíamos discutir a concepção do termo à luz dos cientístas políticos, dos historiadores ou mesmo da semântica. Recomendo a leitura de Reinhart Koselleck. Uma coisa é como avaliamos um movimento, outra é o nome que se deu e se perpetuou. Eu poderia dizer que nem 1930, nem 1932, nem 1964 foram revoluções, ou mesmo os movimentos do século XIX (a Praieira, a Liberal de 1842, a Farroupilha, etc, etc.), mas o que isso teria a ver com o que estava discutindo?
Em 1932, bem como em outros tantos momentos da história do Brasil, lutaram crianças, brancos, negros, pobres, mulheres, nordestinos, sulistas, indígenas, orientais, descendentes de italianos, alemães, armênios, eslavos, judeus, muçulmanos, protestantes e todas as demais clivagens que permeiam a vida do homem/mulher comum. Atribuir a não nomeação de cada um desses grupos uma espécie de racismo é a mais completa loucura.
Infelizmente sou obrigado a dizer que, despreparadas, mal formadas são algumas pessoas que, além de não saber compreender o que está escrito, usam a internet para sublimar suas frustrações e seu ódio do mundo. Infelizmente isso não é um problema da história e não pode ser solucionado por historiadores. Recomendo encaminharem esse tipo de comentário ou preocupação (tais como os que foram feitos no blog) a profissionais habilitados que possam ajudá-los, pelo menos, a aprender a se dirigir civilizadamente ao outro, com respeito e humanidade, mesmo que suas opiniões sejam diametralmente opostas.
Vou manter os comentários, mesmo aqueles absolutamente ofensivos, pois, diferentemente de algumas dessas pessoas, eu acredito na liberdade, na democracia, no direito de expressão, e não odeio nenhuma delas (coisa que, pelo tom dos textos, parece não ser recíproco).
Para encerrar: uma dessa pessoas, a mesma que me acusou de ser "racista", questionou minha suposta ascendência espanhola. Bom, me orgulho de ser neto de Ballesteros, Valeras, Gimenez, Golçalvez, tanto quanto me orgulho de ser um Silva, brasileiro, paulista, filho de operários, historiador e, acima de tudo, um ser humano.
enviada por Indiana Silva
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O quadro que inspirou Pedro Américo em seu Indepêndencia ou

Dêem uma observada atenta a esta tela acima. Seu título é Napoleão III na batalha de Solferino de autoria do pintor francês Jean-Louis-Ernest Meissonier e foi pintada em 1863.
Agora siga até a postagem abaixo e observe o quadro de Pedro Américo, Independência ou Morte!, o qual foi apresentado em 1888.
O quadro foi uma encomenda da Corte justamente no momento em que a crise do sistema monarquico chegava aos seus extertores finais, o que pode justificar parcialmente a encomenda. Uma tentativa, talvez, de lembrar os políticos o quanto o Brasil, supostamente, devia a familia real por dua independência e existência.
Pedro Américo, o qual nem de longe presenciou o corrido do sete de setembro, se inspirou em quadros clássicos franceses ligados as figuras reais de lá, como o quadro de Meissonier. Mas, além disso, Américo era um pintor da escola clássica, a qual tinha procedimentos bastante claros a serem seguidos, normas de conduta na representação de figuras reais, perspectiva, movimento, etc.
Não é uma "cópia", é uma obra que se encontra dentro de um cânone de procedimentos tecnicos e esteticos.
Além do mais muita gente critica o quadro por uma suposta "falta de realismo". Dom Pedro estaria numa mula e não a cavalo, a guarda não estava vestida desta forma, mas de outra, etc, etc, etc.
Pode ser que seja assim, mas isso não faz do quadro uma "falsidade". Para entender isso, temos de recorrer a mentalidade da grande maioria dos historiadores e memorialistas do século XIX.
Num texto clássico romano o grande orador Cícero dizia a um colega seu: Tudo bem, tu dizes que ele morreu de causa natural e eu digo que morreu assassinado. Pois bem, permita-me ficar com a segunda versão, pois ela atribui grandeza a história e oferece um exemplo digno de ser lembrado.
Esse procedimento, o qual guiou durante muito tempo o pensamento histórico do mundo clássico, o de que a história serve para oferecer exemplos dignos de serem seguidos (a "história mestra da vida") foi retomado em diversos momentos ao longo do tempo.
E este procedimento estava implicito na composição da tela de Pedro Américo. Afinal de contas, o que há de nobre ou de memorável numa procissão de mulas parada numa colina e um principe regente irritado com uma carta de Lisboa?
Mas, se ao invés disso temos o evento no qual "Nasce o Brasil como nação independente" isso merece ser lembrado, merece ser dignificado, merece escoltas fabulosas, cavalos rampantes, espadas desembainhadas. Isso é digno de memória para o pensamento das pessoas do século XIX.
O quadro, assim, não é uma "farsa", mas uma leitura do passado dentro das regras que estavam estabelecidas na época em que foi pintado.
Se tiverem um tempinho e lerem o texto abaixo verão que a prórpia data do 7 de Setembro demorou para ser aceita como data nacional. Mas, em 1888, quando ruia o edificio monarquico, o 7 de setembro já era aceito e a monarquia precisava se agarrar a memória de tempos melhores.
enviada por Indiana Silva
28/08/2008 11:40
O 7 de setembro e as versões oficiais

Em mais uma semana, aproximadamente, estaremos no nosso 7 de setembro, data nacional na qual, todos os anos, segundo minha professora orientadora milhares de brasileiros fazem uma "romaria cívica" em direção ao Museu Paulista, conhecido popularmente como "Museu do Ipiranga" em São Paulo.
Desses visitantes quase todos irão ao salão nobre, ao principal espaço do museu, onde está o original da famosa tela de Pedro Américo na qual Dom Pedro, que na ocasião não era ainda o I, declarava a independência do Brasil frente a Portugal.
O historiador francês Georges Duby escreveu certa feita que as datas, os eventos, são como as espumas do mar, que soltam suas bolhas as quais estouram na superficie, mas, debaixo da espuma, há o mar, com toda sua força, discreta e continua.
Os estudos históricos, na primeira metade do século XX, foram marcados por uma recusa do estudo das "datas" e dos "eventos" (coisa que era, e ainda é, tido como a função da história, e que fazia gelar a nuca de qualquer aluno com um pouquinho de bom senso). Para os críticos os eventos eram menos relevantes do que os "processos históricos" e privilegiavam a participação de figuras especificas, de indivíduos em detrimento dos grupos e classes sociais, supostamente os verdadeiros motores da história.
Com isso, durante um bom tempo, se jogou a água do banho com a criança junto. Somente nos anos de 1960, 1970 retornou-se ao estudo de eventos particulares, específicos.
Graças a Alá o "retorno da data" se fez de uma forma crítica, criativa e incisiva. Não se voltou a estudar a data em si, mas sua construção como marco na memória coletiva, um diálogo entre a verdade, entre o ocorrido e sua construção e desconstrução continua permeada por disputas políticas, mudanças de valores, etc.
Ou seja, algo que um dia foi importante pode desaparecer, um evento que antes era tido como banal pode ser conduzido ao pedestal, enfim, a percepção da história em si muda o tempo todo, mais ou menos lentamente.
Lembro-me de certa ocasião, numa cidade no interior de Minas Gerais, na qual minha equipe oferecia cooperação tecnica a diretora do museu da cidade. Dizíamos a ela: Olha, vamos trazer para você uns materiais legais, documentários, livros novos, material que mostra visões diferentes e menos "oficiais" da história brasileira, um livro de nossa orientadora na qual ela mostra como foi composto o quadro do Grito, etc.
A diretora esbugalhou os olhos e disse: Não, não, não, nada de coisa nova, nem alternativa. Se tiverem material "normal" podem me mandar, se não tiver não mandem nada. Imagina o problema que vou ter com os professores se vierem ao museu e virem algo diferente do que estão estudando e ensinando na sala? Vão me linchar.
Nunca mandamos nada para ela.
O fato é que grande parte da população crê que o que lemos nos livros ou que vemos em quadros e filmes são a efetiva realidade, o passado "tal como foi", e não uma "interpretação", uma construção.
Já tratei disso aqui inúmeras vezes, sobretudo a respeito do limite entre realidade e interpretação.
Ninguém está negando, obviamente, que no dia 7 de setembro de 1822 o Príncipe Regente Dom Pedro proclamou a independência do Brasil. Mas, a partir dai, existem inumeras circunstancias que precederam o tal fato, e que se seguiram a ele.
Da mesma forma a "construção" do 7 de setembro como data nacional é bem posterior ao mes de setembro daquele ano.
Durante muito tempo ficou se discutindo qual deveria ser a verdadeira data "nacional" brasileira: poderia ser o 7 de setembro, ou o dia do Fico (no qual o príncipe se recusou a voltar a Lisboa), ou o dia da abdicação, podia ser o dia seguinte, o 8 de setembro, enfim, houve uma longa disputa para que o 7 de setembro se consolidasse. E é claro que a defesa de uma data ou outra dependia das posições políticas e do papel que os grupos políticos queriam dar a Dom Pedro.
O 7 de setembro é uma data que rememora um feito do príncipe, não da "nação", inclusive por isso tinha muita gente que não queria que fosse essa data, mas alguma outra que rememorasse a decisão do "povo" de se tornar independente, e não a decisão do herdeiro.
Ficou mais simples a decisão depois que Dom Pedro, ai já o I do Brasil, decidiu abdicar do trono daqui e voltar para Portugal.
O caso era claro: sem abdicar ao trono português, Pedro I continuava a ser imperador do Brasil e herdeiro de Portugal, portanto havendo a possibilidade de uma nova união dos reinos. Nos anos que se seguiram a independência do Brasil uma insistente disputa se travou para que Pedro I optasse em qual canoa queria sentar. No frigir dos ovos, e no risco de ver Portugal ir para o vinagre diante de um golpe de seu irmão mais novo, Dom Miguel, ele optou por Portugal e foi-se embora.
Foi embora, tornou-se herói por lá, e assumiu o trono como Dom Pedro IV de Portugal. Com isso deixou seu filho criança, Pedro II, aqui, mas resolveu inclusive uma disputa politica que envolvia a memória, pois morto, todos podem ser glorificados.
Com isso abriu caminho para que o 7 de setembro fosse aceito como o Dia da Independência do Brasil.
Mas, ao dizer isso, quem quase foi linchado fomos eu e minha equipe pela tal diretora do Museu.
enviada por Indiana Silva
26/08/2008 09:58
Universo Umbigo: Karnak e Circo Fractais
Para mudar um pouco a temática e falar de coisas boas e atuais, aqui vai uma baita dica, e nem vão ficar me devendo favor por isso>
Até dia 12 de outubro deste presente ano, todas as sextas, sábados e domingos, no teatro do Colégio Santa Cruz, pertinho da Praça Panamericana em Pinheiros, a banda Karnak e a Companhia de Circo Fractais estará apresentando o espetáculo "Universo Umbigo".
Para quem conhece o Karnak, a banda de gente bamba como André Abujamra, Hugo Hori, Kuki Storlaski, Mano Bap, Edu Cabello, James Miller, Sergio Bartolo e Marcos Bowie (sem contar os que vão e vem e nem sempre estão), sabe que serão "duas" companhias circenses em palco. E isso no melhor sentido possível.
Nunca havia assistido nada dos Fractais, mas sou "macaco de auditório" do Karnak, mas mesmo esperando mais ou menos por 50% do espetáculo posso dizer que me encantei 100%, mesmo com aquilo que todos sabíamos que viria. Por exemplo: o dia que o Karnak fizer um show e não tocar "Juvenar" será como Caetano fazer show em São Paulo e não tocar Sampa, ou o Robertão tocar "Emoções". É possível? É, mas frustra o povo.
Universo Umbigo é o título de um disco antigo do Karnak (o qual comprei por uma "bachincha" perto do museu onde trabalhava na Lapa anos atrás), mas o espetáculo montado agora pouco tem a ver com o mesmo. Parte do repertório é do disco, mas foram incluidas obras de outros trabalhos e coisas novas. Por isso, primeiro aviso aos navegantes: Não é o show do disco requentado, revisitado, revisto ou ampliado. É ooooutra coisa. Apenas se aproveitou o "mote para a glosa" como diria Machado de Assis para seus coleguinhas tomando um cafezinho na Confeitaria Colombo.
Os Fractais são circenses da nova cepa, ou seja, uma mistura do clássico acrobático com performance, dança, luz e som. Um melangé do tradicional com o moderno de muito bom gosto e com excelente execução. Mas, Universo Umbigo também não é um espetáculo dos Fractais ao som do Karnak. E ai foi o segundo aviso para os aficcionados em circo ou nos "Fractos" como diria Abu Pai na abertura do espetáculo.
Em verdade, em verdade vos digo, como teria dito outro cidadão famosão, Universo Umbigo é uma experimentação midiatica e performática.
Mas antes que você desista de ver o espetáculo diante de uma definição tão besta, me redimo: é um espetáculo onde se brinca com as diversas formas de nos conectarmos ao mundo, através do som, da imagem, do gesto, do toque, das texturas e todas essas coisas intermediadas pela nossa percepção e avaliadas pelas nossas referências culturais, morais e o escambau.
É um bombadeio de luz, de som, de videos, de arte circense, teatro, sem rotulações específicas nem fronteiras delimitadas. É uma experiência. Adorei, minha namorada adorou, meu amigo/irmão mineiro/musico adorou, meu outro amigo/irmão/historiador/caipira também adorou, enfim, "tudibão" como disse o danado do mineiro que conhece como poucos musica e espetáculo (e esse povo de Beagá entende mesmo).
E no mais, uma série de "imprevisões" previstas pelos artistas e jamais esperadas pelo público. E se quer mais informação, levanta da cadeira e vai lá comprar o seu ingresso, pois o bacana é ver não é ficar conjecturando a respeito.
Preço "bacanudo" de R$30,00 inteira, com o clássico "meia" para estudantes, sem restrições de lugares ou outras calhordices afins, com patrocínio da Coca-Cola (o que mostra que a iniciativa privada tem mais é que investir no que é bom mesmo, sem palhaçadas de "contrapartidas governamentais", um bom exemplo a ser seguido pelo restante das empresas).
É isso, vão lá.
enviada por Indiana Silva
22/08/2008 10:04
Um certo Agosto, em 1954.

Um dos escritores que acho mais geniais é Ruben Fonseca. Conseguiu dar ao gênero policial uma cara brasileira, sem perder o charme do "noir". Seus livros são uma mistura de trama, intriga, paixões avassaladoras, morte, corrupção, suspense, mas também de humor, sarcasmo, ironia. Ou seja, é um batalhão de sentimentos provocados a cada página, muitos deles contraditórios, o que dá mais gosto ainda a leitura.
Comecei a ler Ruben Fonseca pelo menos óbvio: A grande arte, livro envolto na magnificfa arte do "percor" (perfurar e cortar, o que já insinua a história). Depois vieram Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, Romance noir, O selvagem da ópera, Buffo e Spalanzani. Demorou até chegar no seu livro mais famoso e mais influente: Agosto.
Talvez isso se deve a minha mania de fugir ao consensual. Se dez amigos me dizem que doce de abóbora é bom, com certeza vou pedir doce de mamão. Ok, sei que é em alguma medida burro, mas é instintivo, não chega nem a ser "estilo" pois não tem nada consciente nisso.
Muitas e muitas vezes peco tempo e prazer com essa mania. Foi assim com Agosto, do qual privei-me do prazer da leitura durante anos.
O genial de Agosto, entre outros tantos motivos, é o fato de Fonseca enredar realidade e ficção numa trama na qual chega-se a impossibilidade de distinguir uma coisa da outra. Se não foi real era bem possível que fosse assim.
Foi muito sagaz da parte do escritor escolher para o romance um dos fatos mais nebulosos da história recente do Brasil: o suicídio do presidente Getúlio Vargas.
Getúlio chegou ao poder em 1930 pela primeira vez. Liderando tropas revoltosas derrubou o governo da chamada "República do Café com Leite", representada pela alternância de políticos mineiros e paulistas na presidência do país.
Vargas conseguiu amarrar entorno de si diversos grupos descontes com o encaminhamento do Estado brasileiro: antigos membros do movimento tenentista, estados que se viam alijados do poder, grupos sociais em ascenção.
Para o cientista político Boris Fausto a Revolução de 30 não foi uma "revolução", pelo fato de não representar uma mudança radical no estado das coisas. O que aconteceu, em sua opinião, foi uma readequação, um acomodamento de novas forças no meio das que já existiam, ou seja, a entrada de novos grupos políticos dentre aqueles que já controlavam o poder no Brasil.
Seja como for, a década de 1930 foi marcada pela onipresença de Vargas no poder brasileiro: primeiro como presidente temporário (após a revolução/golpe), depois como presidente "legal" (após 1934), finalmente como ditador (com o golpe do Estado Novo em 1937).
Após o fim da II Guerra Mundial a situação política se inverteu significativamente, sobretudo com a influência de militares que combateram o fascismo e o nazismo ao lado dos estadunidenses. Neste mesmo momento Vargas foi derrubado do poder e o Brasil retomou rapidamente seu caminho "democrático".
Depois de uma rápida presidência do General Dutra, em 1950, Vargas retornou a presidência da República, e mais uma vez eleito pelo voto popular.
Mas a resistência a Vargas continuava sendo absolutamente ampla entre as elites (militares, parte da classe política), e entre grupos sociais ou políticos que haviam sido perseguidos por ele (comunistas, judeus, jornalistas, etc). Dentre esses destacava-se a figura de Carlos Lacerda, inimigo encarniçado de Vargas.
Os primeiros anos do mandato foram relativamente tranquilos, mas, depois de 1953, a situação passou a se agravar visivelmente. A imprensa era cotidianamente bombardeada com declarações de Lacerda e a aproximação continua do presidente com sindicatos e trabalhadores desagradava a muitos.
A situação se tornou insustentável quando Lacerda sofreu um atentado na rua Toneleros no Rio de Janeiro. Ele próprio sobreviveu, porém um oficial da marinha a paisana que fazia sua segurança morreu, alimentando o ódio dos militares e dando munição a Lacerda na mídia.
Em meados do mês de Agosto de 1954 era claro o clima de golpe de estado que se armava no Rio de Janeiro. Vargas podia estar quase só, mas ainda tinha ouvidos espalhados pelo país e pelos quartéis. O envolvimento direto de sua guarda pessoal e de seu irmão no atentado a Lacerda lhe implicavam diretamente.
No dia 24 uma reunião no palácio da Catete reuniu os homens de confiança do presidente. O prédio já estava cercado de barricadas esperando pelo pior. Perguntaram-lhe se queria que organizassem a defesa dele convocando tropas fiéis. Vargas disse que não. Saiu da reunião e se recolheu ao quarto, sem dar muita explicação.
Pouco depois houve o desfecho fatídico. Vargas havia dado fim a sua própria vida com um tiro no coração.
Embora haja bastante gente que tenha teorias diferentes para o ocorrido (que ele teria sido assassinado em seus aposentos, etc), não existe nenhuma prova disso.
O fato é que seu vice assumiu o governo. O país, no dia seguinte, beirou a guerra civil com enfrentamentos nas ruas, queima de jornais. Mas, com o tempo, voltou a relativa normalidade. Os militares, que planejavam um golpe, tiveram de voltar aos quartéis com receio de desencadear um conflito generalizado no país.
Anos depois, um militar da reserva dando entrevista a Zuenir Ventura disse: Havíamos montado um banquete e Getúlio puxou a toalha da mesa.
O fato é que o golpe de estado de 1964 sobre o presidente João Goulart era um golpe com retardo de 10 anos. Havia sido pensado e planejado para a tomada do poder pelos militares em 1954, mas o suicídio de Getúlio adiou seus planos. Os próprios golpistas reconheciam isso. É claro que muita água rolou entre o 24 de Agosto de 1954 e o 01 de abril de 1964, mas boa parte daquele golpe estava dormindo há dez anos.
E, de quebra, os acontecimentos de Agosto de 1954 forneceram material para um dos maiores livros policiais da literatura brasileira.
enviada por Indiana Silva
19/08/2008 20:48
Uma volta rápida por Tiradentes

Já devo ter escrito isso aqui em algum outro momento, mas como nunca é demais lembrar certas coisas lá vai uma mea culpa: não conheço as "cidades históricas" de Minas Gerais.
Apesar de conhecer regiões muito improváveis do Brasil, outras absolutamente distantes, remotas, etc, jamais fui as cidades que são consideradas um dos patrimônio maiores de nosso país.
Quer dizer...não conhecia.
Estava há algumas centenas de quilômetros de Tiradentes, uma das cidades mais a leste de Minas Gerais, mais próxima da divisa com o Rio de Janeiro. Depois de alguma confabulação decidimos, eu e minha equipe, empreender uma viagem rápida a Tiradentes. Bate e volta.
Muitas horas depois chegamos a cidade que tem o nome do mártir da Inconfidência Mineira, o alferes José Joaquim da Silva Xavier.
Muito simpática, muito agradável, muito bonita e muito cara a cidade de Tiradentes. Creio que a cidade hoje encarne um dos problemas gerados pelo binômio turismo histórico (ou cultural) e desenvolvimento social.
Há algumas décadas a idéia de aproveitar o turismo para desenvolver cidades e gerar renda, sobretudo em cidades que abrigam patrimônio histórico e cultural ou cidades que possuem um patrimônio ambiental interessante (florestas, montanhas, cachoeiras, lagos, fauna, etc), ganhou muita força.
O turismo virou uma panacéia, a solução para todos os males. Em alguns casos o turismo realmente gerou novas possibilidades de trabalho, ajudou a recuperar estruturas urbanas, aumentou a arrecadação municipal. Em outros casos as experiências não foram tão bem sucedidas, por diversos motivos. Mas mesmo as experiências tidas como "bem sucedidas" depois de alguns anos começaram a mostrar "efeitos colaterais".
Onde há dinheiro há afluxo de pessoas, e afluxo de interesses econômicos, muitos deles novos para as regiões e as realidades locais.
Os problemas são inúmeros e podem aparecer individualmente ou em grupo: exploração do trabalho, prostituição (ainda mais a de menores), especulação imobiliárias, máfias locais que controlam as licenças de operação dos negócios, invasão de empreendedores de fora da cidade, empregando os moradores tradicionais em sub-empregos, descaracterização das cidades, aceleração da degradação do patrimônio cultural e ambiental. Em suma: a medicação pode matar o paciente.
Uma coisa que particularmente me irrita é o excesso de mercantilização das cidades. Cobra-se por tudo e cobra-se demasiadamente caro, as vezes contra a vontade do visitante.
Quando estive no bairro da Boca em Buenos Aires, recentemente, fui agarrado e extorquido por uma moça fantasiada de dançarina de tango. Meu amigo Renato Suzuki, fotógrafo, imortalizou a numa foto que se Deus quiser um dia será apagada de seu computador.
Algo semelhante, graças a Deus nenhum jogador de capoeira me agarrou no Mercado Modelo, ocorreu em Salvador.
Por isso quando olho de longe e vejo um monte de lojinhas minha testa começa a suar, fico tenso e meu prazer em estar ali começa a se esvair.
Tudo bem, tudo bem, a grande maioria adora isso, eu devo ser especialmente chato, mas creio que mesmo para a maioria existe um limite do tolerável.
Quando paramos em Tiradentes e vi as lojinhas...
O pouco tempo que tinhamos ali não dava para realizar grandes proezas históricas/arqueológicas/literárias, dava para ver as lojinhas apenas. E a grande maioria delas com preços exorbitantes vendendo artigos com pouca ou nenhuma identificação com a cidade: bonecas de cabaça a R$300,00, jóias em prata por outras centenas de reais, mas pouco que me contasse mais sobre a cidade e sua gente.
Fiquei um tanto decepcionado. Não ocorreu a epifania que meus amigos diziam que ocorreria quando eu finalmente fosse às cidades históricas de Minas Gerais, o céu não se abriu e o Senhor não falou comigo. Talvez tenham sido os coches que a cada dois minutos quase me atropelavam nas ruas.
De resto, tentando bloquear essas questões, a cidade é gostosa e deve ser melhor ainda mais vazia. Pequenina, uma das "caçulas" das cidades históricas. Surgiu no meio do caminho entre as áreas mais importantes de exploração de ouro no século XVIII e o Rio de Janeiro, por onde ele era escoado para a Europa.
E tecnicamente não posso mais dizer que jamais fui as cidades históricas de Minas Gerais.
enviada por Indiana Silva
16/08/2008 22:05
Inventando tradições: a Tocha e a Pira Olimpica

Os historiadores Eric Hobsbawm e Terence Ranger organizaram há vários anos um livrinho genial hamado "A invenção das tradições".
Nele os dois historiadores, e outros tantos colaboradores, contam como foram inventadas tradições que ao público em geral parecem ter centenas, milahres de anos, mas que, na realidade, são invenções bastante modernas.
Um dos exemplos clássicos, dado se não me engano pelo historiador Hugh Trevor-Hoper, é o das padronagens dos tweeds, os tecidos de lá que são utilizados na confecção dos kilts, os famosos saiotes escoceses. A tradição diz que as padronagens das linhas dos tecidos são características dos clãs escoceses (lembram-se do primeiro Highlander? Do protagonista correndo com seu saiote pelas terras altas?), como brasões, e que seriam quase imemoriais, vindas de tempos remotos, da formação das grandes famílias (os clãs). Conversa fiada, os tweeds e suas padronagens são invenção da época da Revolução Industrial, não distintivos da Idade Média.
Pois é, o mundo é cheio de "tradições" inventadas. As Olimpiadas, tais como foram definidas pelo Barão Pierre de Coubertin e seus sucessores, é uma fábrica de "tradições". è hino olímpico pra cá, maratona encerrando os jogos para lá, bandeira de cinco aros, gregos abrindo a cerimônia e a dupla infalível: Tocha e Pira Olímpicas.
Tudo bem, tudo bem. Não tenho nada contra elas, até gosto das tradições inventadas, acho que dão um gostinho todo especial as coisas (para além, é claro, de seus aspectos essenciais como a distinção de grupos, a hierarquização de classes sociais, etc.). Gosto de tweeds e kilts, e até gosto do primeiro Highlander. Gosto da pira olímpica e da tocha que carrega o "fogo sagrado", rsrs.
O fato é que o Barão de Coubertin teve a idéia de usar uma tocha que buscasse uma centelha do fogo sagrado na cidade de Olímpia na Grécia e a transportasse até o local dos jogos inspirado nos antigos rituais religiosos do mundo grego antigo.
Um historiador francês do século XIX, de nome curioso aliás, Fustel de Coulanges, produziu uma pequena jóia da literatura chamada "A cidade antiga". Neste livro, um clássico absoluto sobre o mundo antigo, Fustel descreve o início do culto ao fogo doméstico, origem das cerimônias religiosas nas quais Coubertin se inspirou.
O fato é que o domínio do fogo pelo ser humano demorou muito tempo e de todas as tecnologias foi uma das mais decisivas na vitória da espécie na luta pela sobrevivência. A religiosidade dos antigos gregos e romanos, os quais em seus tempos primordiais eram nada mais do que grupos tribais, evoluiu mantendo os cultos ao fogo.
Cada casa mantinha uma pequena lareira com fogo que jamais se extinguia. É claro que para isso sempre havia alguém responsável pela observação, e se apagasse dá-lhe uma sova.
Esse fogo familiar era algo prático, necessário, mas também simbólico, representando a própria chama da vida da família.
Mas não era apenas entre gregos e romanos que o fogo possuia lugar privilegiado na religião: entre os hebreus, entre os hindus (de diversas linhagens religiosas), entre os nativos americanos também tinha - e tem - o fogo lugar central.
Nos rituais religiosos romanos, já em tempos de religião pública e não mais familiar, existiam sacerdotisas do fogo, as vestais, as quais opravam os práticas mágicas envolvendo esse elemento e possuiam a obrigação de jamais deixá-lo morrer.
Foi inspirado em toda essa importância e simbologia que os criadores das Olimpiadas da Era Moderna inventaram a tradição da tocha e da pira olímpica, as quais trazem parte da simbologia antiga.
Diga-se de passagem que achei que, neste ano, a tocha ia apagar a qualquer momento naquele troca troca no estádio olímpico. E lá ia um atleta chinês com uma tocha na mão que parecia rojão de São João e puxava uma trava igual uma granada. Pensava eu: Vai dar m...!!
Não deu, para a felicidade de todos e a manutenção das tradições inventadas.
Conto depois um dos mitos mais importantes para a cultura grega e que está diretamente associado ao fogo.
enviada por Indiana Silva
13/08/2008 22:49
Olimpiadas de Munique 1972
Na noite de 05 de setembro de 1972, no meio dos Jogos Olimpicos de Munique, na então Alemanha Ocidental, um grupo de terroristas de um grupo árabe chamado Setembro Negro invadiu a Vila Olimpica.
Eles seguiram em direção ao alojamento da delegação israelense. Na tentativa de entrar mataram dois atletas que perceberam o intento dos invasores e resistiram. Os outros nove atletas da delegação froam feitos reféns.
Um longo cerco se armou aos terroristas e seus reféns. Depois de muita negociação foi cedido um helicoptero que levaria terroristas e reféns até o aeroporto, onde fugiriam para o Oriente Médio.
O helicoptero, do exercito alemão, pousou e os terroristas chegaram em viaturas com seus reféns. No translado para o helicoptero os atiradores de elite do grupo de resgate dispararam contra os terroristas, mas não os mataram. No desespero os sequestradores atiraram contra os reféns e detonaram uma granada dentro do helicoptero. Terroristas, soldados e reféns foram todos pelos ares. Todos os atletas foram mortos numa das mais desastradas tentativas de resgate da história.
Os jogos foram paralisados diante de um mundo atônito. 34 horas depois foram reiniciados, mas a inocência dos jogos havia sido perdida definitivamente.
Depois de Munique a preocupação com o terrorismo se tornou um pesadelo em todos os jogos olimpicos, e cada vez mais.
Em verdade o Setembro Negro jamais existiu, era um nome fantasioso para um grupo que agia sob comando de Yasser Arafat, lider da resistência palestina contra o estado de Israel. Do mesmo jeito que o grupo surgiu ele desapareceu depois de poucas ações.
Há alguns anos o cineasta Steven Spielberg filmou "Munique", filme que conta os episódios ocrridos em setembro de 1972 a a subsequente caça aos membros que planejaram e financiaram o atentado.
O governo israelense, na época presidido pela primeira ministra Golda Meyr, ordenou a caça e a execução a qualquer preço dos mentores e financiadores do ataque aos atletas.
Apesar das críticas acho um filme muito bom, sensível e não maniqueísta. Não trata dos "bonzinhos" contra os "maus", mas questiona o bem e o mal que existe em cada um de nós.
Triste, irônico, mas realista quer isso tenha se dado justamente no evento que é tido como o "congraçamento dos povos".
enviada por Indiana Silva
11/08/2008 10:13
Olimpiadas e política
Uma coisa é o discurso, outra é a prática.
Em todas aberturas de Jogos Olimpicos o presidente do Comitê Mundial, bem como dos comitês organizadores, chefes de estado, etc, insistem que as Olimpiadas são um momento de confraternização dos povos, um disputa pela superação humana, a celebração do esporte como agregador da humanidade. Quase ninguém acredita nisso, principalmente os que discursam dizendo isso.
Ao longo dos mais de 100 anos das Olimpiadas da era moderna ficou mais do que comprovado o caráter político de tais jogos. Seja nos boicotes estadunidense e soviético durante os anos de Guerra Fria (boicotaram-se mutuamente em Moscou 1980 e Los Angeles 1984), seja pelo trágico sequestro e assassinato dos atletas israelenses em Munique, ou pela raiva provocada em Adolf Hitler quando o corredor negro estadunidense Jesse Owens venceu em Berlim, 1936, os corredores brancos, os jogos ganharam cores políticas cada vez mais fortes.
Nas últimas décadas as Olimpiadas demonstraram ainda uma outra face da política, num mundo não mais polarizado entre os EUA e a URSS: a disputa econômica.
Escândalos de suborno foram abafados para não manchar o "espírito olímpico", mas é público e notório, por exemplo, o investimento que o Comitê Organizador dos jogos de Atlanta fez em gordas propinas pagas aos presidentes de muitas associações desportivas internacionais e delegados que votariam na escolha da cidade sede.
Receber uma Olimpiada, além da dor de cabeça, significa investimento de bilhões e outros tantos em gastos com turismo e deslocamento das delegações, sem contar no licenciamento de produtos.
Não acho isso um problema, mas deve ser dito, pois são fatores mais importantes do que a poluição de Beijing ou a violência do Rio de Janeiro na escolha de uma cidade sede.
O fato é que os Jogos Olimpicos mesmo no mundo grego antigo tinham um caráter político acentuado. Um das diferenças entre os jogos antigos e os modernos é o caráter religioso que os primeiros possuiam, não a ausência da política.
Ter um vencedor numa das provas em homenagem a Zeus significa glorificar a cidade de origem do mesmo, era uma prova da superioridade de seus cidadãos. A guerra, lá como cá, não se fazia apenas de armas em punho, mas com a criação do imaginário de "super-potências", manifestadas na habilidade de seus representantes.
Nenhuma alusão direta ao que os EUA fazem com jovens como Michael Phelps, mas apenas direta. As coincidências não existem em absoluto.
Em suma: não é possível dissociar as Olímpiadas do caráter político que as acompanham, tanto no mundo grego antigo quanto hoje. Que o digam, agora, os chineses.
enviada por Indiana Silva
07/08/2008 08:38
Primeiro de Agosto de 1914, o início da 1 Guerra Mundial

A 1 de agosto de 1914 teve início o conflito armado mais traumático da história recente.
Muitos, e eu mesmo durante muto tempo, imaginam que a Segunda Guerra Mundial foi o evento bélico mais significativo e traumático da história contemporânea.
Esse imaginário se formou graças a diversos motivos: ao fato de ter o nazi-fascismo como inimigo direto, por causa do genocídio contra judeus, ciganos, etc, por conta do mundo pós Guerra dividido em dois gigantescos blocos.
Obviamente que ninguém está estabelecendo uma disputa entre qual foi o pior conflito da história, para os afetados - direta e indiretamente - por cada um dos conflitos isso é uma indignidade e um desrespeito com o sofrimento do outro.
Mas trata-se de uma mudança de parâmetro, de escala de conflito, de impacto sobre as populações.
Quando estourou a Primeira Guerra Mundial o mundo ocidental vinha do chamado "século burguês" ou da "era das luzes". Após as revoluções burguesas no final do século XVIII e dos conflitos até meados do XIX, a Europa havia entrado em uma era de relativa estabilidade.
Mesmo os conflitos gerados pelo surgimento do movimento operário e do comunismo criavam conflitos locais e curtos, sem ameaçar a estabilidade a médio prazo.
Esse período foi marcado por uma constante revolução tecnológica, por uma certa arrogância científica no qual se ufanava dos feitos humanos. O luxo financiado com dinheiro da burguesia em expansão invadia os salões fazendo reviver quase o esplendor da nobreza antes das revoluções do final do século XVIII e começo do XIX.
A Guerra Frnco-Prussiana foi um prelúdio do que viria a partir de 1914, mas ninguém podia saber disso. Quando o assassinato do Arquiduque Frederico Ferdinando da Áustria-Hungria, em Sarajevo, precipitou os acontecimentos que fizeram eclodir a guerra apenas parte das pessoas tinha noção de como suas vidas, e o mundo, mudariam radicalmente.
Até o começo da Primeira Guerra Mundial os conflitos eram contados em dezenas, as vezes centenas de milhares de mortos, dessa vez eles seriam contados em milhões.
Cargas de cavalaria - de Hussardos - investiam contra tanques, grupos de guardas eram bombardeados por aviões ou queimavam sob efeito de gases mortíferos, invenções do tal "progresso científico" que fazia o orgulho da burguesia européia.
A Primeira Guerra Mundial foi um rito de passagem do mundo contemporâneo, foi a perda definitiva da inocência. Um estadista disse "as luzes da Europa se apagaram e não voltaremos a vê-las se acenderem nesta vida". Estava certo.
Hoje cresce a adesão dos historiadores a interpretação que vê as duas Guerras Mundiais como um único conflito, separados por um armistício de duas décadas. Em verdade a Segunda Guerra Mundial tinha seus motivos em grande medida, mas não somente, ligados diretamente ao revanchismo das nações perdedoras do primeiro conflito, humilhadas e deixadas em situação precária pelos vencedores.
Recentemente foi lançado um filme sobre o primeiro natal passado nas trincheiras entre a França e a Alemanha na Primeira Guerra Mundial: "Feliz Natal" (Joyeux Nöel). Lindo, um dos melhores filmes que vi em alguns anos.
Naquele Natal de 1914 as tropas presas nas trincheiras saíram para confraternizar e realizar uma trégua natalina - o que foi verdade -, o filme aborda a guerra sem ser um "filme de guerra", com muita sensibilidade e sem os maniqueísmos que geralmente imperam nos filmes de conflitos.
Para quem quiser dar uma olhada mais a fundo na história do conflito recomendo "História ilustrada da Primeira Guerra Mundial" de John Keegan, "A Sagração da Primavera" de Modris Eksteins e o acompanhamento jornalístico feito por Julio de Mesquita na Europa e editado há alguns anos em quatro volumes fartamente ilustrados.
Quem preferir romance pode ler "Nada de novo no front" de Erich Maria Remarque ou "Adeus às armas" de Ernst Hemingway, ambos maravilhosos.
enviada por Indiana Silva
05/08/2008 09:57
Agosto, mês do desgosto?

Diz o ditado popular que "Agosto é o mês do desgosto".
Uma lista das tragédias ocorridas neste mês seria extensa, mas não mais extensa do que uma lista de tragédias ocorridas em qualquer outro mês do ano, de fato temos desgraças suficientes para preencher todo o ano.
Mas, reforçando a idéia de ser o "mês do cachorro louco", Agosto efetivamente foi o mês de alguns eventos que chocaram o mundo no século XX.
Acrescente-se a isso o fato de ser o primeiro século da humanidade com larga cobertura jornalistica, por radio e televisão principalmente, os quais forneceram sons e imagens chocantes dos eventos. Até então as pessoas imaginavam as tragédias ou podiam contar com pinturas realizadas sob encomenda para os jornais.
A própria fotografia demorou para se tornar algo pratico, movel e rápido para poder acompanhar a velocidade dos ocorridos.
Uma das imagens mais chocantes, ao menos para mim, é a do grande cogumelo nuclear sobre a cidade japonesa de Hiroshima (hoje seria bem pequeno perto dos artefatos criados desde então).
Lembro-me do dia 11 de Setembro, quando as Torres Gêmeas de Nova Iorque foram destruidas pelos ataques terroristas, que cheguei para minha aula de História Medieval na USP e nosso professor disse que não iria se manifestar a respeito, posto que se alguém inventou o terrorismo no século XX esse alguém foram os Estados Unidos quando lançaram duas bombas atômicas sobre populações civis e sem capacidade de defesa.
Obviamente que tal pensamento é algo distorcido, mesmo porque um ato de barbárie contra populações civis não justifica outro.
Eric Hobsbawm, o historiador inglês, comentava em seu livro "A era dos extremos: o breve século XX" que de cada dez mortos em conflitos durante o século nove deles estavam desarmados. Assim como as populações de Hiroshima, Nagasaki e Nova Iorque.
De qualquer forma foi no dia 6 de Agosto de 1945 que o avião Enola Gay vôou sobre o Japão e lançou "Little Boy" (o "menininho") em Hiroshima.
O resultado conhecemos bem. Centenas de milhares de mortos desimados quase instantaneamente (256.000), outras centenas de milhares sequeladas nas décadas seguintes, muitos com efeitos nefastos da radiação em si e em seus descendentes. Poucos dias depois foi a vez da cidade de Nagasaki.
Os técnicos e cientistas estadunidenses (com ajuda dos melhores cérebros europeus) sabiam bem o potencial destrutivo da nova arma, desenvolvida, aliás, para contrapor o poder alemão.
Mas rapidamente, diante da derrota alemã, o Japão se tornou o alvo, inclusive como vingança pelo ataque a Pearl Harbor. Além do mais enviava-se uma mensagem para a União Soviética.
Dizem, alguns, que os aliados não teriam coragem de lançar uma arma tão maligna sobre a Europa, mas sobre asiáticos os estadunidenses se sentiram mais a vontade. Difícil de provar, o jogo de circunstâncias e a cronologia dos eventos não demonstra com clareza tal possibilidade, mas é uma situação tão crível que mesmo que não seja verdade muita gente passou a crer nisso.
enviada por Indiana Silva
03/08/2008 08:21
Desaparecimento do folclore??
Durante esses últimos anos tive o privilégio de poder viajar pelas mais diversas regiões do país. Estive no sertão nordestino, em várias de suas regiões litorâneas, no centro-oeste durante quase um ano todo, nos vales do Paraíba e do Ribeira em São Paulo, nas Minas Gerais, na região serrana do Rio de Janeiro, no extremo sul e no extremo oeste, desci os rios Negro e Amazonas.
Muitas vezes, às vésperas de sair a campo, nas regiões mais remotas do país, eu ouvia alguém dizer que ou eu ia encontrar uma realidade muito rústica, quase um retrato de um tempo passado, ou que encontraria uma situação plenamente desconfigurada, uma imitação de segunda categoria das grandes cidades brasileiras. Em resumo, que eu encontraria culturas em processo de desagregação ou, senão, materializações das histórias de Monteiro Lobato.
Ariano Suassuna, o grande escritor, disse certa vez que viu durante décadas pesquisadores irem ao nordeste e dizerem que o cordel estava morrendo. Pois todos eles haviam morrido e o cordel continuava vivo. Ariano é um defensor ferrenho das culturas populares e um fiel de sua capacidade de sobrevivência.
Tal defesa de Ariano não vem de uma questão somente ideológica, mas de uma ideologia constituida a partir da observação cotidiana das culturas populares.
E nisso concordo plenamente com ele.
Jamais encontrei por onde andei nem uma coisa nem outra das que me diziam que eu encontraria: nem lugares onde a cultura popular havia morrido, nem lugares onde estivesse congelada no tempo.
As culturas são dinâmicas, isso é a essência delas e sua garantia de sobrevivência. Se não fosse assim ainda estaríamos a lascar pedras como nossos ancestrais de centenas de milhares de anos. Cultura é essencialmente uma arte de mudar. Mas, apesar das mudanças, as culturas são capazes de manter o essencial, o que ainda serve, é útil e faz sentido.
O problema para aqueles que vêem o tempo todo uma "morte das culturas populares" é que aprenderam em manuais antigos "como" eram essas culturas e não "porque" ou "de que modo" essas culturas se processavam diariamente. Se prenderam as formas e não aos coteúdos. Ai ficaram a procurar gente que crê em Caiporas e Curupiras, que ainda tem as maleitas descritas por Monteiro Lobato para seu Jeca Tatú.
Talvez para o imaginário os espaços tenham ficado mais estreitos. Hoje há mais luz, mais televisão, menos fé em alguns aspectos, mais ciência e sobrou menos espaço para as chamadas "crenças populares". Mesmo assim sempre vi nas comunidades uma fé tradicional muito arraigada, mesmo quando as pessoas mudam de igreja ou de religião.
Conheci gente também que mora em grandes cidades, que estudou, que trabalha em indústrias e vê televisão, mas morre de medo das "visagens" que ocorrem aos viajantes noturnos no extremo norte ou no centro-oeste.
Como Ariano Suassuna tenho certeza que as culturas populares, ou se quisermos chamar de "folclore", jamais desaparecerá. Simplesmente porque é a essência da sobrevivência das culturas, daquilo que faz os humanos serem humanos.
enviada por Indiana Silva
30/07/2008 20:16
Para ler sobre folclore: Mikhail Bakhtin

Ele, provavelmente, detestaria ter um livro seu tido como "sobre folclore", mas vou justificar a inclusão.
Mikhail Bakhtin em verdade era filósofo da linguagem, ou linguísta, mas seus trabalhos foram tão revolucionários e tão profundos que transcenderam qualquer classificação tradicional: são de história, de linguística, de literatura, de antropologia.
Preferia o termo "cultura popular" ao invés de folclore por achar o termo incorreto ou pejorativo. Seu livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais promoveu uma reviravolta em muitas áreas.
Em primeiro lugar, de forma mais imediata, inovou no tratamento das obras do escritor francês François Rabelais, como Gargântua e Pantagruel, autor clássico da língua francesa, uma "pedra de toque" dessa cultura, mais ou menos como para nós é Gil Vicente e Gregório de Matos.
Tantos autores já haviam se ocupado da obra de Rabelais, inclusive Lucien Febvre, um dos pais da Escola Histórica-Geográfica Francesa dos Annales. Mas Bakhtin propôs um modo alternativo de ver a obra de Rabelais, substituindo sua personalidade de suposto "incrédulo" ou "ateu" pela de autor "medieval", inserido no universo do burlesco, do escatológico, do cômico mundano das ruas e feiras medievais. Contudo, letrado, escritor que transitava entre as elites, um ela de ligação entre as culturas populares e as elites no espaço temporal que opera a transição entre a Idade Média e o Renascimento.
A segunda proposição de Bakhtin que fez estremecer o chão dos academicos foi a de que as culturas populares e as elites não compõem universos distintos e plenamente separados. Estão ligadas, sim, por um complexo sistema de trocas e inversões nos quais traços culturais de um e outro trocam de lado e são re-interpretados livremente.
Essa idéia seminal de Bakhtin frutificou nos estudos de cultura e fez escola. Sua influência é clara em inúmeros pesquisadores consagrados que vieram na sua sequência.
De quebra, o pesquisador russo ainda estabeleu todo um sistema explicativo para o riso e o cômico popular, baseado na observação do riso dos bufões e dos palhaços populares.
Por isso Bakhtin é fundamental para quem quer saber mais sobre "folclore", ou, como preferia, "culturas populares".
enviada por Indiana Silva
28/07/2008 09:37
Folclore, cultura e pensamento no modernismo brasileiro
O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre costumava dizer que o modernismo que ele encabeçava no nordeste era o verdadeiro modernismo brasileiro, e não o paulista de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Alcântara Machado, Oswald de Andrade e tantos outros.
Para ele o modernismo paulista era cheio de estrangeirismos que fugiam completamente ao que deveria ser a base do movimento: um resgate modernizador das raizes culturais nacionais.
Em verdade, parte da implicância de Freyre se devia a extrema vaidade que o acompanhou por toda a vida, qualquer disputa por atenção desagradava-o profundamente. Mesmo tendo escrito Casa Grande e Senzala mais de uma década após a Semana de Arte de 1922, o grande momento do modernismo em São Paulo, o movimento liderado por Mário de Andrade e seus companheiros continuava a ser o mais influente no âmbito da cultura brasileira, ao menos no que diz respeito a suas elites.
Mas, divergências a parte, ambos os movimentos - os modernismos paulista, pernambucano - partiam de um mesmo pressuposto.
Para ambos a cultura brasileira necessitava ao mesmo tempo se projetar para o futuro, romper com a tradição academicista, que imperara no século XIX, e resgatar as verdadeiras (na opinião deles) raízes da cultura nacional.
Ao longo do século XIX o que chamaríamos de "produção cultural" brasileira (musica erudita, literatura, artes plásticas, arquitetura) tinha sido inundada por uma enxurrada de artístas, técnicas, escolas e pensamentos europeus. Basta lembrarmos da chegada da Missão Artística Francesa, a qual foi fundamental para a criação da escola de belas artes no Rio de Janeiro.
Nossa pintura era de feição de um Benedito Calixto, de um Almeida Jr., nossa música erudita era Carlos Gomes, a literatura - excetuando os virtuoses, como um Machado de Assis - reproduzia igualmente as escolas europeias, sobretudo os modismos franceses. A arquitetura classicista, inspirada também nos franceses.
Por isso o surgimento do modernismo no Brasil, bem como em boa parte do mundo, partiu do rompimento com essas escolas estéticas européias do século XIX. E também da busca por uma "identidade nacional".
É claro que conceitos como "identidade" e "nação" são extremamente complexos, mas no contexto de um movimento artístico e intelectual que não queria ser acadêmico essa não era a preocupação central. Mais importante era encontrar aquilo que nos remetesse a nossa identidade brasileira, não ficar matutando sobre o que era isso.
A solução dos modernistas, tanto em São Paulo quanto no Nordeste, foi buscar as "raízes" brasileiras naquilo que havia antes na "invasão cultural francesa" do século XIX ou naquilo que havia sobrevivido a ela, nos rincões mais afastados do país.
Se essa invasão cultural havia começado com o Império Brasileiro, no começo do século XIX, então uma das opções era ir em direção ao nosso passado colonial. Se os "francesismos" haviam se assentado mais nas grandes cidades a outra solução era ir em direção aos hábitos, culturas, práticas do interior.
Esses dois traços foram os pílares do pensamento cultural brasileiro ao longo do século XX. Basta darmos uma olhada panorâmica em como ainda nos comportamos diante da cultura brasileira.
Quando criaram o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no primeiro governo de Getúlio Vargas, sob influência modernista os primeiros edifícios a serem reconhecidos como patrimônio nacional foram justamente os que se remetiam ao período colonial, e ainda mais, ao barroco, tido como o ápice da estética portuguesa colonial. Nas academias, rapidamente, as cadeiras de Brasil Colônia se tornaram as mais influentes e as que atrairam os nomes mais influentes da intelectualidade brasileira. Efeitos do pensamento modernista.
Era certo que nessa busca por uma identidade, por uma raíz nacional, os modernistas se deparassem com aquilo que passou a ser conhecido como "folclore" brasileiro.
E foram em grupo em direção a essas matrizes: Mário de Andrade foi em busca de seu Macunaíma (um tema mitológico), Tarsila atrás de Abaporu (o emblema da "antropofagia cultural", do devorar a si mesmo para produzir outra coisa), Villa-Lobos compôs suas Bachianas Brasileiras empregando temas regionais, cirandas, sambas, choros.
Mas, para o grupo de Mario de Andrade, esse processo comportava bem as influências estrangeiras, era apenas uma questão de digerir o que fosse interessante, processar, e excluir o que não fosse, a "antropofagia". Para outros, como Freyre, essa assimilação de elementos estrangeiros era algo menos radical do que uma recusa maior, como ele preferia.
De fato uma recusa plena era impossível, até porque a própria idéia de modernismo não era "brasileira". De qualquer forma foi o movimento cultural mais influente do século XX no Brasil e base para as mentalidades da produção e gestão cultural brasileira. Também foi o grande responsável por uma certa reabilitação das culturas populares, até então tidas como responsáveis pelo atraso brasileiro. De roldão o folclore deixou de ser, parcialmente, signo de gente "atrasada" para se tornar uma espécie de "vedete cultural".
enviada por Indiana Silva
24/07/2008 14:37
Leituras sobre o folclore

Algumas dicas de leitura para quem quer conhecer um pouco mais sobre "folclore" ou sobre "cultura popular", como prefiro.
Estar acompanhado por bons livros, com boas reflexões sobre um tema é uma ótimo ponto de partida para qualquer incursão sobre um universo de conhecimento.
Tanto no Brasil quanto no exterior o tema "folclore", bem como "cultura popular", foi fartamente discutido ao longo de quase dois séculos de pensamento sobre o assunto. Coisas muito bacanas surgiram e outras nem um pouco. Mas é sempre melhor falar das coisas boas que foram produzidas sobre um assunto.
No caso brasileiro, sem a menor dúvida, o principal nome quando se trata de folclore e cultura popular é Luis da Câmara Cascudo. O escritor se debruçou sobre o tema ao longo de toda uma vida e produziu uma obra absolutamente fantástica. Nenhum outro pensador brasileiro produziu uma obra tão abrangente sobre nossas culturas populares.
Algumas de suas obras se tornaram clássicas, tanto pela força das idéias, quanto pela extensão do trabalho ou mesmo pelo pioneirismo.
Civilização e cultura é uma densa investigação, a moda da antropologia e da arqueologia, sobre o nascimento e a formação da cultura como traço distintivo da espécie humana. Hoje, passadas muitas décadas de sua publicação, arqueólogos e antropólogos do mundo todo continuam engalfinhados no tema, mas a análise de Cascudo não deve nada, pela época em que se escreveu, aos trabalhos mais recentes.
História da alimentação no Brasil é um trabalho pioneiro, numa época em que alimentação era tema somente de cozinheiras. Sua incursão pelo universo da cultura do que vai a boca é fantástica. Até o relançamento da obra, há alguns anos, o livro era vendido a preço de ouro nos sebos. leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema alimentação.
Dicionário do folcore brasileiro é uma obra de referência a qual sempre retorno, atualizado e aumentado recentemente - para a nova edição - o livro continua a ser um dos melhores salva-vidas para quem precisa de uma informação correta e rápida a respeito de alguma manifestação folclorica brasileira.
Mas há muito mais, Cascudo escreveu obras sobre artigos culturais brasileiros específicos (jangadas, redes, cachaça), sobre tecnicas vocais (Vaqueiros e cantadores, Literatura oral no Brasil, Locuções tradicionais, etc), e muito mais.
Muita gente acusou Câmara Cascudo de ser direitista, autoritário e adepto do Integralismo. Muita gente foi, e, nos anos de 1930 no Brasil, era difícil dicernir com clareza os lados políticos em disputa.
Independentemente das cores políticas de Cascudo sua obra é leve, generosa, sem qualquer traço de preconceito ou discriminação. Pelo contrário, sempre foi um entusiasta do caldeirão cultural brasileiro.
É a primeira e uma das mais fortes referências para quem quer saber mais sobre folclore.
enviada por Indiana Silva
22/07/2008 21:17
O que é "folclore"?

Pois é!! Quem pensou que eu iria fazer um posto sobre o folclore com uma imagem do Saci Pererê, ou da Iara (jamais esquecendo a importância indelével dessas figuras para a constituição da cultura nacional, rsrs), do Curupira ou do Boitatá, se enganou redondamente.
E isso tem um porquê.
Apesar de achar que quem chegou até este blog já sabe, tenho de referenciar: folclore é um neologismo da língua portuguesa, formado a partir de duas palavras inglesas, folk e lore. Literalmente isso significa "saber do povo" ou algo bem próximo disso segundo cada linguísta.
O problema não está exatamente nas palavra em si, mas nas livres interpretações que se deram a ela ao longo do tempo. Nos Estados Unidos da América um tipo de música muito influente é o chamado "folk", o qual influenciou muitos músicos, como Bob Dylan, Janis Joplin, Simon and Garfunkel, James Taylor, etc.
Mas se colocamos esses músicos ao lado do Saci Pererê (pois ambos estão associados ao prefixo "folk") um certo estranhamento vai ficar. Por quê?
Pois quando usamos "folk" para designar um estilo musical ele nos remete a idéia de "popular", "raíz", quando "folk" está associado a mentalidades, técnicas, práticas, aprendemos a associá-lo a idéia de "popular", "curioso", "antigo".
Nada mais equivocado.
Eu evito usar o termo "folclorico" ou "folclore" para designar conhecimento ou mentalidades das populações. A questão é relativamente simples: se folclore é aquilo que diz respeito ao conhecimento popular, e popular é aquilo que vem do povo - e eu me considero "povo" - então teria de considerar que tudo o que faço ou penso é "folclore".
Mas, em geral, costumamos achar que "folclore" é aquilo que se remete ao universo de povos tradicionais, como sertanejos, caipiras, caboclos, etc. Coisas como comidas tradicionais, lendas, mitos.
Em verdade essa definição de "folclore" é relativamente recente, data do século XIX, quando pesquisadores começaram a investigar - em busca de uma idéia de "origem", de raíz" - o passado de seus povos, sobretudo na Europa.
Mas, ao mesmo tempo em que queriam encontrar raízes de um passado que lhes desse um sentimento de pertencimento, uma identidade, eles queriam se distanciar disso, queriam se mostrar como modernos, avançados. Dai foi sendo construída essa idéia, de que o folclore é algo que é popular, mas é algo de origem, do passado, algo que nos dá uma certa identidade, mas do qual não compartilhamos mais, senão como lembrança.
Essa idéia se tornou algo tão forte, dão difundido que mesmo depois de quase um século de crítica a ela ainda não foi derrubada.
Mas, se formos entender "folclore" como o "saber popular" das duas uma: ou mudamos nossa forma de ver o que é popular e como nós nos relacionamos com isso (enquanto "povo"", ou encontramos uma palavra um tanto melhor para definir as coisas.
enviada por Indiana Silva
20/07/2008 10:49
Entre a história acontecimento e a história interpretação
Algumas discussões ocorridas neste espaço ao longo de sua existência acabaram por me levar a uma indagação: o que elas teriam em comum, ainda que envolvendo assuntos tão distintos como imigração, Revoluções, lugares pelo Brasil a fora ou mesmo a rotina do viajante?
Cheguei a uma possibilidade de entendimento que, em verdade, abre uma discussão a respeito das relações entre ciência, fé e verdade e o papel da história dentro desse universo de relações.
Parte significativa dos problemas envolvidos aqui começam no sistema educacional. Infelizmente isso não é uma exclusividade brasileira, ou de países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Uma pesquisa, realizada há alguns anos, demonstrava que parte significativa da população dos Estados Unidos não sabia que era a terra que girava ao redor do sol e não vice-versa. Os alunos normais franceses sabem menos a respeito da Revolução Francesa do que alunos de outros países.
O físico Carl Sagan, quando escreveu O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, denunciava isso: uma comunidade global que não conseguia se relacionar com a ciência a disposição.
É claro, a ciência NÂO é uma VERDADE ABSOLUTA, a proposta dela é justamente o contrário, é se colocar a prova o tempo todo. Uma interpretação científica somente sobrevive a medida em que, colocada a prova, consiga se sustentar. Se um pedaço de pão escapa da minha mão e não cai, em condições normais, então deveremos rever os príncios de Isaac Newton a respeito da Lei da Gravitação. Como isso não acontece continuamos a achar as idéias newtonianas boas, pelo menos para nosso cotidiano imediato.
Existem cientistas radicais, quase fundamentalistas, como o biólogo Richard Dawkins que acha que qualquer pensamento que não seja o científico é sinal de ignorância e delírio. Não creio que seja assim, e não creio que seja a opinião mais corrente mesmo entre cientistas.
Se preciso tomar uma decisão tecnica, médica, jurídica, vou me ater a ciência. Quero uma opinião científica sobre se devo me operar ou não, se devo trocar o freio do meu carro, se devo e posso processar quem me caluniou, mas posso conviver achando que há mais do que isso por trás. São Tomás de Aquino dizia que a ciência fortalece a fé e não a nega.
Mas com a história as coisas parecem ainda mais complicadas, pois as pessoas - a maioria pelo menos - pensa que a história seja ou algo objetivo (como imaginam que a ciência seja) ou algo absolutamente subjetivo (como são as "histórias", as quais cada um tem uma). Entre os dois extremos a história fica num terreno de ninguém, sob pesada fuzilaria.
Uma consideração de Dráusio Varela ao final do Estação Carandiru me parece ser interessante, dizia ele, sobre o massacre dos 111 presos no presídio: existe a "verdade" dos presos, a da polícia e a Deus, dessas só tive acesso à dos presos.
Uma das dimensões que quem trabalha com história tem que trabalhar constantemente é justamente a que nos diz que a verdade do "fato", do "ocorrido", jamais nos será entregue, se é que ela existe. Além do mais, a "verdade" a respeito de algo é a de quem invadiu ou de quem foi invadido? De quem venceu ou de quem perdeu? De quem dirigia uma reunião ou de quem servia café naquele dia?
Essa margem de discussão, entre as versões a respeito de algo, não comporta a desonestidade, a ética de quem pesquisa e escreve. Mesmo que aquilo que chamamos de "verdade" seja uma convenção ela precisa funcionar, precisa se submeter a prova. Não posso dizer que Fernando Collor de Mello não renunciou à presidência da República após a abertura de um processo no Congresso contra ele, acusando-o de práticas ilícitas e pedindo sua cassação. Isto é uma "verdade" consensual. Geralmente as disputas na história e nas ciências em geral se dão nas filigranas do fato e não nele em si.
Collor foi vítima de uma conspiração? Ele realmente era culpado? Derrubaram ele por motivos obscuros os quais nem sequer sabemos? Isso tudo é passível de discussão, mediante a apresentação de provas.
Nisso a história é igual às demais ciências: toda interpretação depende de ser colocada a prova para ser aceita. Uma interpretação aceita se mantém enquanto outra melhor não surgir. E a cada dia que passa essas interpretações são postas a prova, e a medida em que não dão mais conta do recado vão decaíndo, até desaparecerem, num processo longo. Até mesmo porque idéias que caíram podem sobreviver durante muito tempo em grupos específicos, ou mesmo na maioria, quando as academias, onde se produz parte do conhecimento científico, não fazem sua obrigação que é a de interagir com a sociedade.
Eu sei, todo esse processo pode parecer complicado, mas também é divertido, e necessário.
enviada por Indiana Silva
18/07/2008 09:34
18 de julho de 1936
18 de julho de 1936 foi um daqueles dias em que os desejos de lembrar e esquecer convivem íntimamente.
Naquele dia o General Franco deu um golpe de estado derrubando o governo repúblicano democraticamente eleito na Espanha e iniciando uma ditadura que duraria décadas.
Com o golpe comunistas, anarquistas e simpatizantes de todas as partes do mundo se mobilizaram para garantir a retomado do poder, dando início a Guerra Civil Espanhola.
Além dos motivos óbvios desse dia vergonhoso outro se soma. A Guerra Civil Espanhola foi vencida por Franco com ajuda da aviação alemã, já sob controle do governo nazista. E ninguém intercedeu, nenhum estado com força, na Europa ou nas Américas, tentou deter tal absurdo: nem o golpe de estado, nem a interferência alemã nos assuntos espanhóis.
Deu no que deu.
O silêncio dos estados dito democráticos garantiu a possibilidade de crescimento do poder dos estados nazi-fascistas e, quando se deram conta, os alemães já estavam dentro da Polônia, cerca de três anos depois.
A Guerra Civil Espanhola se notabilizou não só por ter sido a chamada "prévia da II Guerra Mundial", mas por ter sido uma luta heróica e trágica. Com o apoio dos alemães - os quais bombardearam a cidade de Guernica, dando o mote para o famoso quadro de Picasso - a luta na Espanha se tornou deveras desigual e quase desesperada.
Pelos rádios, cotidianamente, simpatizantes dos repúblicanos ouviam as notícias da Guerra pelo mundo afora. Muitos se alistaram como voluntários em batalhões internacionais, como o escritor estadunidense Ernest Hemingway (que depois escreveu Por quem os sinos dobram, inspirado em sua vivência no front espanhol), o fotógrafo Robert Capa (o qual produziu a foto de um soldado republicano levando um tiro no peito no alto de uma montanha), o brasileiro Apolônio de Carvalho (dirigente do Partido Comunista), o inglês George Orwell (autor de 1984), entre tantos e tantos.
As brigadas internacionais, bem como os republicanos, caíram, mas, como disse aqui noutra ocasião, foi a derrota deles que venceu no campo da memória e não a vergonha nazi-facista.
Certa vez, o antropólogo Darcy Ribeiro disse num discurso: "Perdi todas as lutas que travei: tentei salvar os índios e não consegui, tentei criar uma universidade do futuro e nos tomaram ela, tentei melhorar a educação brasileira e me venceram. Mas detestaria estar do lado daqueles que ganharam."
Por esse mesmo motivo lembrar e esquecer a Guerra Civil Espanhola - em seus diversos aspectos - é ainda tão importante.
enviada por Indiana Silva
15/07/2008 17:00
Kublai Khan

Na imagem acima - provavelmente - um funcionário do Grande Khan (título mongol que seria o similar a "imperador") entrega aos irmãos Matteu e Niccolo Polo (pai de Marco Polo) uma placa em ouro com um salvo-conduto autorizando-os a atravessarem o império mongol com segurança e auxílio das autoridades imperiais.
A história é narrada no livro ditado por Marco Polo na cadeia a Rustichelo de Pisa, por isso temos uma idéia do que continha na placa que esta sendo entregue na imagem.
Kublai Khan, um dos maiores governantes da história da China, era neto de Gengis Khan, o famoso conquistador da Ásia. Esta imagem provavelmente se passa em Kambaluc - ou Kambhalic - capital recém criada para o império chinês pelo próprio Kublai Khan.
Kambaluc é a atual Beijing, ou Pequim, como era chamada pelos ocidentais até pouco tempo. Inclivelmente, boa parte das coisas que imaginamos serem chinesas, em verdade, são de origem mongol e incorporadas a China somente após a aconquista dessa por Gengis Khan.
Com a invasão mongol a China passou por um processo de assimilação da cultura mongol, boa parte disso forçado pelos Khans mongóis e seus funcionários designados a administração das inúmeras regiões do vasto império.
Ao longo dos séculos os elementos culturais mongóis passaram a fazer parte de forma tão íntima da China que passamos a vê-los como se sempre tivessem sido chineses, como a própria cidade de Beijing, tão mongol em sua origem.
Foi durante esse período, século XIII, que diversos credos se espalharam pelo império chinês, como o próprio cristianismo. Kublai Khan memso era uma figura curiosa e interessada em credos outros, talvez pelo fato de os mongóis serem de uma cultura muito plástica, de povos nômades, acostumados às mudanças e adaptações frequentes. Um dos episódios mais curiosos da família Polo é justamente o pedido de Kublai para que o Papa lhe envie 100 sábios cristãos para travarem debates com religiosos de outras religiões do império, como budistas, islâmicos e xintoístas.
Tais sábios jamais chegaram a Kambaluc. O recém eleito Papa enviou apenas dois frades franciscanos, os quais fugiram de volta tão logo os irmãos Polo saíram dos limites de influência do cristianismo.
De qualquer forma Kublai Khan foi uma figura interessantíssima e um dos pilares do Império Chinês, tal como ele permaneceu até a Revolução Cultural Chinesa de 1949. É claro que do século XIII ao XX há um longo processo de transformações, mudanças políticas, anexações, perdaes de território, mas os elementos culturais são de transformação mais lenta, e por isso a chegada dos mongóis na China forjou a cultura desta região tal como ela nos chegou.
enviada por Indiana Silva
13/07/2008 10:40
Domingão de pouco sol... em Paranapiacaba é legal!
Domingão é um bom dia para retornar a rotina de tranquilidade. Ok, vão me dizer que tranquilidade e rotina são duas idéias quase incompatíveis. Mas, para mim que detesto desnecesárias e gratuitas, tranquilidade é mesmo minha idéia de rotina.
Nesse domingão de pouco sol, bastante frio, férias escolares, o que fazer? Ir para onde tem menos sol, e mais frio ainda!! É o que faz quem vai a Campos do Jordão e, de alguns anos para cá, para Paranapiacaba.
Há alguns meses postei aqui a respeito da famosa vila inglesa, a qual compõe o conjunto arquitetônico de Paranapiacaba, sub-distrito de Santo André, da região metropolitana de São Paulo.
A vila surgiu em função da construção da Estrada de Ferro São Paulo Railway, a SPR, na segunda metade do século XIX. Depois de uma longa história de idas e vindas, a qual contei no blog, Paranapiacaba foi encampada pela cidade de Santo André, um sonho antigo, e passou por um processo de recuperação, re-ocupação, re-qualificação. E está funcionando.
Há quase uma década começou-se a pensar na idéia de criar em Paranapiacaba um festival de inverno, aproveitando o charme que a eterna neblina e o friozinho atribuem a vila, sem contar a paisagem formosa da serra e das construções antigas.
É claro que no começo o festival ia mais devagar, os retornos eram mais lentos, mas ele se mostrou robusto, em condições de avançar. Junto com isso chegaram novos habitantes, pequenas pousadas, artesãos, enfim, a vila ganhou nova vida.
Agora, depois de décadas de luta, a cidade de Santo André está pleiteando junto a UNESCO o reconhecimento de Paranapiacaba como Patrimônio da Humanidade, o que seria justo e uma coroação das décadas de luta de muitos para - principalmente da prefeitura e da própria comunidade - para injetar nova vida a vila.
Como alguém que atua na área de patrimônio acho bem provável que obtenhamos o reconhecimento, mas isso pode demorar, dependendo do andamento do processo.
De qualquer forma, pegue seu casaco, amigos, parentes, namorados/as, e rume em direção a serra, tenho certeza que a experiência de ver Mawaca, Seu Jorge, Lenine, Marina de La Riva e tantos outros no cenário de Paranapiacaba será inesquecível e valerá muito a pena.
Começou ontem o festival, e vai até o final do mês de julho, sempre nos finais de semana. É só conferir a programação no site de Santo André:
www.santoandre.sp.gov.br
enviada por Indiana Silva
10/07/2008 21:08
Ainda sobre 1932.
Vou gastar um pouco do meu tempo e também dos leitores para esclarecer algumas coisas. Prefiro ocupar meu tempo escrevendo e fazendo coisas bacanas, não respondendo gente raivosa, mas isso se faz necessario as vezes.
Vivemos num país onde o analfabetismo formal diminui, mas aumenta o numero de analfabetos funcionais. Tive o privilégio de ser aluno de um professor na Universidade de São Paulo que no primeiro dia de aula olhou para a classe e disse: Vocês não sabem ler, e vou provar isso!
Passada nossa indignação com tal afirmação fui obrigado, ao longo do curso, com humildade, a concordar com o professor que, embora efetivamente eu fosse alfabetizado, meu aproveitamento do texto era muito inferior ao que poderia ser. Isso há dez anos.
Algumas pessoas me chamaram de "jornalista", coisa que não sou, e isso está logo ai em cima, do lado direito superior de sua tela do computador: sou um historiador, bacharel em história pela Universidade de São Paulo e pós-graduando pela mesma instituição. Não que ache um problema ser jornalista, apenas não sou.
A segunda coisa que acho importante esclarecer é que neste espaço opero uma interlocução entre ciência e difusão científica, entre discussões acadêmicas, das quais participo intensamente por conta de minha carreira, e aquilo que vai no cotidiano das pessoas que não são cientistas. E nisso também não há qualquer problema.
Mas há uma questão, ou algumas questões que permeiam esse universo. A internet é um território livre, às vezes desregulamentado de tão livre. As pessoas se sentem protegidas pelo anonimato dos computadores, e por isso dizem coisas que jamais diriam pessoalmente.
Creio que ninguém se atreveria a gritar na Praça da Sé que os paulistas são "paulixo" ou "otários". Mas as pessoas escrevem isso na internet. Infelizmente só posso lamentar por estas pessoas, as quais, infelizmente, não conhecem o significado de palavras como democracia, liberdade, direito de expressão, cidadania, respeito e educação.
Outro dos problemas é que, ao contrário da física quântica, da bio-química, da engenharia genética, as pessoas discutem história em seus cotidianos, o que acho ótimo por um lado, mas terrível por outro.
O lado terrível disso é que algumas pessoas se esquecem que existem cursos universitários de história, profissionais da área (historiadores), e que a própria história é uma área de especialização do conhecimento humano. Todos tem direito de opinar e questionar, mas não creio ser legítimo colocar em dúvida, baseando-se apenas no senso comum, uma informação dada por alguém formado em uma determinada área do conhecimento.
Quando você precisa operar seu coração consulta um cardiologista ou segue a opinião dos amigos do clube? Infelizmente, com a história não é assim.
Agora somemos a falta de respeito, de educação, de cidadania de algumas pessoas, com sua incapacidade de ler direito as coisas e a arrogância de se pensar "dono da verdade" e teremos comentários como alguns dos que foram feitos neste blog há alguns dias.
Quando cito Getúlio Vargas e Hitler não estou comparando-os, nem a Revolução de 1932 com a II Guerra Mundial ou a resistência francesa. Não me interessam aqui estas questões, as quais creio que, inclusive, são indevidas. Estou comparando o processo de "construção das memórias coletivas" (nesse caso dos paulistas e dos franceses), coisa que, aqueles que escreveram impropérios sequer sabem do que se trata. Basta voltar ao texto e lê-lo com calma e atenção.
Sou paulista de nascimento, apaixonado pelo sertão nordestino, relativamente bom conhecedor do centro-oeste e do norte do Brasil, com muitos amigos em todas essas regiões, bem como no sul e no sudeste. Amigo também, e mais que isso, irmão, de negros, índigenas, latinos de diversas origens, orientais, homossexuais, portadores de necessidades especiais, enfim, de gente comum às quais me ligo apenas mediante um critério: sua limpeza de caráter, seu compromisso com a verdade e comprometimento em construir um mundo melhor.
Discussões a respeito da "identidade paulista", da suposta superioridade deste ou daquele, simplesmente não me interessam. Foi esse tipo de sentimento que, ao longo da história, alimentou toda sorte de massacre, de genocídio, de exploração.
Sobre o fato de 1932 ter sido ou não uma Revolução, poderíamos discutir a concepção do termo à luz dos cientístas políticos, dos historiadores ou mesmo da semântica. Recomendo a leitura de Reinhart Koselleck. Uma coisa é como avaliamos um movimento, outra é o nome que se deu e se perpetuou. Eu poderia dizer que nem 1930, nem 1932, nem 1964 foram revoluções, ou mesmo os movimentos do século XIX (a Praieira, a Liberal de 1842, a Farroupilha, etc, etc.), mas o que isso teria a ver com o que estava discutindo?
Em 1932, bem como em outros tantos momentos da história do Brasil, lutaram crianças, brancos, negros, pobres, mulheres, nordestinos, sulistas, indígenas, orientais, descendentes de italianos, alemães, armênios, eslavos, judeus, muçulmanos, protestantes e todas as demais clivagens que permeiam a vida do homem/mulher comum. Atribuir a não nomeação de cada um desses grupos uma espécie de racismo é a mais completa loucura.
Infelizmente sou obrigado a dizer que, despreparadas, mal formadas são algumas pessoas que, além de não saber compreender o que está escrito, usam a internet para sublimar suas frustrações e seu ódio do mundo. Infelizmente isso não é um problema da história e não pode ser solucionado por historiadores. Recomendo encaminharem esse tipo de comentário ou preocupação (tais como os que foram feitos no blog) a profissionais habilitados que possam ajudá-los, pelo menos, a aprender a se dirigir civilizadamente ao outro, com respeito e humanidade, mesmo que suas opiniões sejam diametralmente opostas.
Vou manter os comentários, mesmo aqueles absolutamente ofensivos, pois, diferentemente de algumas dessas pessoas, eu acredito na liberdade, na democracia, no direito de expressão, e não odeio nenhuma delas (coisa que, pelo tom dos textos, parece não ser recíproco).
Para encerrar: uma dessa pessoas, a mesma que me acusou de ser "racista", questionou minha suposta ascendência espanhola. Bom, me orgulho de ser neto de Ballesteros, Valeras, Gimenez, Golçalvez, tanto quanto me orgulho de ser um Silva, brasileiro, paulista, filho de operários, historiador e, acima de tudo, um ser humano.
enviada por Indiana Silva
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